quinta-feira, 18 de junho de 2009

A cadeira dourada


Sentada no alto de uma cadeira dourada mergulhada no nada ela pensava...Pensava na cadeira dourada e no passarinho que via bem distante...pensava no chão que faltava e no amor que sentia.
Seria mesmo amor? Por ela, pelo outro ou pela cadeira dourada? Só sabia amar sentada, naquela cadeira específica. O amor era antes de tudo um lugar e não um sentimento de alteridade. Ela se envergonhava do amor que sentia, sabia que era por ela mesma, não pelo outro. Olhava tristemente a foto do casal, aquele casal não faria o menor sentido longe daquela cadeira. E ela queria levantar, sentar por um instante na cadeira ao lado, ou proseguir andando... Deixou então o conforto do lugar naquela cadeira dourada e deslocou todo seu amor para o caminho repleto de curvas e de surpresas.
DA MINHA ALDEIA vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.

Alberto Caeiro, em "O Guardador
de Rebanhos"
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