terça-feira, 24 de novembro de 2009


"Mas e se fosse mesmo assim? Sem começo ou fim. Sem datas, sem manuais de instrução...sem saber se amanhecerá ou se a lua aparecerá? E se fosse feito assim sem preocupação, sem moldes, sem planos? E se fosse assim com amor e sem hora? Ou o contrário! E sem preparações, sem preocupações e simplesmente acontecesse...e se fosse fácil e sabido, como atravessar um rua...Ou ligar um carro? E o silêncio então, nunca mais existiria. E a cabeça nunca mais deixaria esse pensamento de fugir. E se a profundidade fosse pouca? E nada nos afogaria. Ou se o pássaro viesse de um vôo calmo e desse um mergulho bem do nosso lado e o peixe no bico garantisse toda a eternidade dos próximos dois minutos? E se fosse assim, como eu seria?" Duda Cambraia.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um certo céu solitário

Com um lindíssimo vestido branco, Sônia sentia que aquele era um dos momentos mais decisivos da sua vida. Quando ele, ao lado da mãe e com um largo sorriso no rosto, apareceu na porta do santuário, Sônia não pôde acreditar. Havia passado toda a noite anterior com ele e no seu íntimo guardava esperanças genuínas de que ele simplesmente não aparecesse.
Tudo girou à sua volta e ela desmaiada caiu no chão. Foi vítima de um forte ataque de coração. E esse ataque fazia todo sentido ao contrário de todo acaso que muitas vezes nos cerca. Como uma conversa pede, muitas vezes, um beijo ou um murro, aquele instante pedia um ataque do coração. Sônia era extremamente católica e sempre rogava aos santos que a tirassem a vida através do coração.
De olhos abertos enxergou o famoso túnel e a famosa luz no fim do túnel. Sônia era alegria em estado bruto. Estava certa de que adiante havia o Paraíso com São Pedro à sua espera. Sim, seu maior desconforto estava resolvido. A solidão ácida que a ameaçava teria um fim. Encontraria muitas pessoas boas no Paraíso. Estaria sempre rodeada de gente. E foi caminhando leve e serena... A porta estava aberta, mas não havia ninguém. Ninguém na porta, ninguém dentro do Paraíso, ninguém ao redor do Paraíso. Sônia chorou como uma criança, chorou tanto que adormeceu numa relva vermelha. Quando acordou ficou observando aquele céu de um azul exuberante, aquele silêncio maravilhoso. Começou a perceber que o Paraíso era a solidão. E deixou que o silêncio permeasse todo o seu ser e se apaixonou pela ausência de todos. Sentia-se feliz e completa, sentia-se livre. Livre das amarras da civilização, livre da palavra falada, livre, livre, livre.
Virou lentamente a cabeça para o lado e avistou um vulto. Uma imagem que trazia muitas lembranças e o inferno dos sons. Aquele sorriso tão conhecido acompanhado de palavras...Soltou um grito de horror, outro ataque do coração, desta vez, fatal.