
Tinha acabado de sair da terapia, parado, pensativo, acendia seu último cigarro. Caminhando vagarosamente deparou-se com Jorge, um amigo que não via há tempos. Entre palavras vazias e disperas, olhava para a fumaça do seu próprio cigarro. Estava novamente na Austrália, na companhia de Joana, naquele cenário único onde tantos cigarros foram acesos e apagados. No aeroporto sabia que algo tinha saído dos trilhos, mas como iria voar se convencia de que tudo no universo estava na mais perfeita ordem. Aquele rosto frágil e ao mesmo tempo trágico se desenhava na sua mente.
Ela deitada, descansando, de tantos cigarros. Cigarros dele. A ex-mulher, os quatro filhos, a amante e ela...mais uma, mas sempre se sentiu menos uma. Gostava dele, gostava do cheiro dele, mas não gostava dos cigarros acesos. Não gostava daquela fumaça que havia entre eles. Tantos cigarros, tanta neurose, tantas pessoas entre um cigarro e outro.
Um dia, ela achou que tinha esquecido. Um dia, ele achou que era mais. Mais livre e ela viu apenas mais um cigarro, naquela noite de reencontro, havia mais um cigarro, mais um que fora fumado durante a tarde. Na cabeça cheia de neurose, era para ele mais um cigarro e para ela, menos ainda. Menos que um cigarro e mais que toda a fumaça imaginável.
Despediu-se de Jorge, apagou o cigarro e quando foi atravessar a rua...apenas restou a fumaça.