domingo, 28 de novembro de 2010

Passou a mão pelos cabelos, fios brancos e usados em grande maioria. A outra mão pela cintura, dele, mas pensando na dela. Com um olhar firme e decidido pensava em como intenromper aquela conversa. Ela, descontraída e preocupada, imaginava o chão da cozinha. Chegando bem próximo dela, ele hesitou entre contar um segredo ou beijá-la ardetemente. Não fez uma coisa nem outra. De novo tocou em seus cabelos, talimãs doados pelo tempo. Respirou fundo e despediu-se, ela tocou suavente em seu ombro e disse do prazer da conversa. Os olhos faíscantes se encontraram. A alegria do encontro deu lugar ao vazio da despedida. Ela, em casa, limpando o chão da cozinha, lembrava daquela voz tão imponente. Ele, no café, com um cigarro entre os lábios, sem tempo para grandes reflexões, pensou no segredo que deveria ter contado: a tristeza imensa por não ter envelhecido ao seu lado.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Onde há fogo...há muita fumaça


Tinha acabado de sair da terapia, parado, pensativo, acendia seu último cigarro. Caminhando vagarosamente deparou-se com Jorge, um amigo que não via há tempos. Entre palavras vazias e disperas, olhava para a fumaça do seu próprio cigarro. Estava novamente na Austrália, na companhia de Joana, naquele cenário único onde tantos cigarros foram acesos e apagados. No aeroporto sabia que algo tinha saído dos trilhos, mas como iria voar se convencia de que tudo no universo estava na mais perfeita ordem. Aquele rosto frágil e ao mesmo tempo trágico se desenhava na sua mente.

Ela deitada, descansando, de tantos cigarros. Cigarros dele. A ex-mulher, os quatro filhos, a amante e ela...mais uma, mas sempre se sentiu menos uma. Gostava dele, gostava do cheiro dele, mas não gostava dos cigarros acesos. Não gostava daquela fumaça que havia entre eles. Tantos cigarros, tanta neurose, tantas pessoas entre um cigarro e outro.

Um dia, ela achou que tinha esquecido. Um dia, ele achou que era mais. Mais livre e ela viu apenas mais um cigarro, naquela noite de reencontro, havia mais um cigarro, mais um que fora fumado durante a tarde. Na cabeça cheia de neurose, era para ele mais um cigarro e para ela, menos ainda. Menos que um cigarro e mais que toda a fumaça imaginável.

Despediu-se de Jorge, apagou o cigarro e quando foi atravessar a rua...apenas restou a fumaça.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009


"Escrevo esta simplicidade: descasco-te um fruto no joelho.
Humedecem os dedos no interior da devoção.
O amor. Sei-o bem. Aprendi o ofício. Dedico-me a ele na exaltação das imensas noites. Escrevo-o com esta mão lírica que tocou o mundo inteiro, desde a curva do teu ombro às mandíbulas do esquecimento. Ah...o amor, essa máquina afectuosa a escavar por mim adentro...cabeça, pés, o peito todo. A comer-me onde sou profundo de ti. A martelar-me a carne bêbada nas altas colinas do contemplamento. Digo-te meu amor e penso esta coisa belíssima: a mão a levar-te o gomo à boca..." ( Ricardo Álvaro in O Espantador)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Anéis mágicos...



Quando eu era pequena, morava no interior, no meu interior e no interior do Brasil. Num fim-de-mundo mágico repleto de sonho e imaginação. Toda quinta eu tinha um compromisso muito sério, ia à manicure com minha mãe. Era um ritual feminino demorado e belo. Entre muitas conversas desnecessárias e o cheiro do esmalte, um som me encantava e me fazia voltar sempre àquele lugar. A mulher que cuidava das mãos da minha amada mãe usava anéis e antes de passar o esmalte nas unhas da minha mãe ela fechava as duas mãos com o esmalte no meio e o fazia rolar entre um sentido e outro. Neste momento absolutamente e absurdamente mágico, eu fechava os meus olhos e escutava com todo o meu louvor aquele mantra. Os anéis tocando no esmalte que iria tornar minha mãe mais bela...e eu sonhava alto, muito alto, sonhava que um dia, não muito distante, eu teria anéis e poderia ser dona daquela melodia, aquela capaz de anunciar o cuidar de um feminino mais do que misterioso e especial...

terça-feira, 24 de novembro de 2009


"Mas e se fosse mesmo assim? Sem começo ou fim. Sem datas, sem manuais de instrução...sem saber se amanhecerá ou se a lua aparecerá? E se fosse feito assim sem preocupação, sem moldes, sem planos? E se fosse assim com amor e sem hora? Ou o contrário! E sem preparações, sem preocupações e simplesmente acontecesse...e se fosse fácil e sabido, como atravessar um rua...Ou ligar um carro? E o silêncio então, nunca mais existiria. E a cabeça nunca mais deixaria esse pensamento de fugir. E se a profundidade fosse pouca? E nada nos afogaria. Ou se o pássaro viesse de um vôo calmo e desse um mergulho bem do nosso lado e o peixe no bico garantisse toda a eternidade dos próximos dois minutos? E se fosse assim, como eu seria?" Duda Cambraia.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um certo céu solitário

Com um lindíssimo vestido branco, Sônia sentia que aquele era um dos momentos mais decisivos da sua vida. Quando ele, ao lado da mãe e com um largo sorriso no rosto, apareceu na porta do santuário, Sônia não pôde acreditar. Havia passado toda a noite anterior com ele e no seu íntimo guardava esperanças genuínas de que ele simplesmente não aparecesse.
Tudo girou à sua volta e ela desmaiada caiu no chão. Foi vítima de um forte ataque de coração. E esse ataque fazia todo sentido ao contrário de todo acaso que muitas vezes nos cerca. Como uma conversa pede, muitas vezes, um beijo ou um murro, aquele instante pedia um ataque do coração. Sônia era extremamente católica e sempre rogava aos santos que a tirassem a vida através do coração.
De olhos abertos enxergou o famoso túnel e a famosa luz no fim do túnel. Sônia era alegria em estado bruto. Estava certa de que adiante havia o Paraíso com São Pedro à sua espera. Sim, seu maior desconforto estava resolvido. A solidão ácida que a ameaçava teria um fim. Encontraria muitas pessoas boas no Paraíso. Estaria sempre rodeada de gente. E foi caminhando leve e serena... A porta estava aberta, mas não havia ninguém. Ninguém na porta, ninguém dentro do Paraíso, ninguém ao redor do Paraíso. Sônia chorou como uma criança, chorou tanto que adormeceu numa relva vermelha. Quando acordou ficou observando aquele céu de um azul exuberante, aquele silêncio maravilhoso. Começou a perceber que o Paraíso era a solidão. E deixou que o silêncio permeasse todo o seu ser e se apaixonou pela ausência de todos. Sentia-se feliz e completa, sentia-se livre. Livre das amarras da civilização, livre da palavra falada, livre, livre, livre.
Virou lentamente a cabeça para o lado e avistou um vulto. Uma imagem que trazia muitas lembranças e o inferno dos sons. Aquele sorriso tão conhecido acompanhado de palavras...Soltou um grito de horror, outro ataque do coração, desta vez, fatal.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

"Para criar, destruí-me; tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente." (Soares)