sábado, 15 de agosto de 2009

Amor e budismo

Demorou quase três anos para ter intimidade sentimental com seu namorado. Tinha medo dele, precisava temê-lo. Mas, o ponto central do problema era outro: tinha medo do amor. Sabia que o amor era um peso, um fardo, um sentimento colado ao ego. Belo era sentir amor pela humanidade, belo e leve. Agora amar verdadeiramente uma pessoa, para ela, tratava-se de uma questão de egoísmo. Amar é querer constamente o outro, e mais do que isso é querer que esse outro não sofra. Por amor a ele, ou por amor a nós mesmos. Kant não havia amado ninguém, ela estava certa disso. Não existe amor desinteressado, a não ser que seja um amor coletivo e não um amor individual. O fato era que o amava intensamente. E isso a deixava muito triste e desesperançosa em relação ao futuro. O certo é cada um se amar e pronto, assim ela afirmava em sua mente. Mas, o que pode a razão diante do sentimento vulcânico chamado amor? Nada. Pensava que a solução para aquele problema era aderir ao budismo, não só de uma forma religiosa, ou filosófica, mas também corporal. Pensava seriamente em ir para uma sociedade alternativa budista. Depois de passar dias ao lado dele, acordou arrumou sua bagagem e seguiu rumo à comunidade budista. Trabalhava durante o dia e fazia muitas orações durante a noite. E antes de dormir lavava o rosto e sempre enxergava a imagem dele, tão nítida, tão forte, que não conseguia impedir que as lágrimas caíssem. O amor não permitiu que se transformasse numa budista convicta.

domingo, 9 de agosto de 2009

      POEMA EM LINHA RETA

    Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
    Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

    E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
    Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
    Indesculpavelmente sujo,
    Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
    Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
    Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
    Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
    Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
    Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
    Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
    Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
    Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
    Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
    Para fora da possibilidade do soco;
    Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
    Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

    Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
    Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
    Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

    Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
    Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
    Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
    Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
    Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
    Ó príncipes, meus irmãos,

    Arre, estou farto de semideuses!
    Onde é que há gente no mundo?

    Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

    Poderão as mulheres não os terem amado,
    Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
    E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
    Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
    Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
    Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

    Álvaro de Campos

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Pobre Schiller

Domingo fui ao teatro assistir a peça Maria Stuart do Schiller. Ao saber que iram utilizar a tradução do Bandeira fiquei muito animada. Mais de três horas sentada diante de uma peça horrível. Coitado do Schiller...um texto lindo tão mal falado...O diretor apostou num cenário bem despojado, tudo bem simples. Ver uma rainha de calças foi algo me chocou. Porque me chocou? Um texto de 1800 ou tem que ser adaptado aos dias atuais ou se não for modificado a platéia tem que ser convidada a entrar neste outro tempo. Como fazer isso? Só através da palavra eu acredito que seja impossível, tem que haver uma atmosfera, o cenário no caso. As duas rainhas representaram pessimamente seus papéis. Uma gritou tanto que teve uma crise de tosse diante da platéia. A outra exagerou tanto na representação que caricaturou a personagem. Enfim, foi um final de domingo muito cansativo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Alma geográfica

Para Fabrício

Naquele almoço eu já sabia antecipadamente da vitória. Ainda que eu não soubesse adivinharia ao olhar aquela face luminosa e aliviada. Ele estava se preparando há um ano...se preparando para ocupar um lugar que era seu. Como a vida é repleta de curvas, ele teve que suar um pouco para sentar no seu lugar de direito. Robson era um pessoa muito interessante. Tinha a geografia estampada em seu rosto. Sua conversa sempre era permeada por cheiros, pessoas, lugares exóticos. Tinha uma alma delicadamente trágica. A paixão era sempre seu porto seguro. Sempre absurdamente e absolutamente apaixonado. E na maioria das vezes por pessoas muito diferentes das que circulam em nossas pacatas vidas. Pessoas oriundas de lugares não conhecidos. Isso fazia parte de Robson, essas pessoas, esses grandes amores, retratavam a sua psique. Uma psique complexa e muito original. Seus pensamentos e sentimentos circulavam por lugares inéditos, surpreendentes. Ouvir suas histórias representava uma festa para a imaginação.

sábado, 1 de agosto de 2009

"... os bichos me fantasticam. Eles são o tempo que não se conta. Pareço ter certo horror daquela criatura viva que não é humana e que tem meus próprios instintos embora livres e indomáveis. Às vezes eletrizo-me ao ver bicho. Estou agora ouvindo o grito ancestral dentro de mim: parece que não sei quem é mais a criatura, se eu ou o bicho." Clarice Lispector