quinta-feira, 17 de dezembro de 2009


"Escrevo esta simplicidade: descasco-te um fruto no joelho.
Humedecem os dedos no interior da devoção.
O amor. Sei-o bem. Aprendi o ofício. Dedico-me a ele na exaltação das imensas noites. Escrevo-o com esta mão lírica que tocou o mundo inteiro, desde a curva do teu ombro às mandíbulas do esquecimento. Ah...o amor, essa máquina afectuosa a escavar por mim adentro...cabeça, pés, o peito todo. A comer-me onde sou profundo de ti. A martelar-me a carne bêbada nas altas colinas do contemplamento. Digo-te meu amor e penso esta coisa belíssima: a mão a levar-te o gomo à boca..." ( Ricardo Álvaro in O Espantador)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Anéis mágicos...



Quando eu era pequena, morava no interior, no meu interior e no interior do Brasil. Num fim-de-mundo mágico repleto de sonho e imaginação. Toda quinta eu tinha um compromisso muito sério, ia à manicure com minha mãe. Era um ritual feminino demorado e belo. Entre muitas conversas desnecessárias e o cheiro do esmalte, um som me encantava e me fazia voltar sempre àquele lugar. A mulher que cuidava das mãos da minha amada mãe usava anéis e antes de passar o esmalte nas unhas da minha mãe ela fechava as duas mãos com o esmalte no meio e o fazia rolar entre um sentido e outro. Neste momento absolutamente e absurdamente mágico, eu fechava os meus olhos e escutava com todo o meu louvor aquele mantra. Os anéis tocando no esmalte que iria tornar minha mãe mais bela...e eu sonhava alto, muito alto, sonhava que um dia, não muito distante, eu teria anéis e poderia ser dona daquela melodia, aquela capaz de anunciar o cuidar de um feminino mais do que misterioso e especial...