sábado, 31 de janeiro de 2009



Caos

Ela era extremamente católica. Todos os dias fazia sua oração no início da manhã, acendia a vela para seu santo de devoção, respirava fundo e ia rumo aos seus afazeres. Era uma bela mulher de meia idade e durante todas as tardes ia ao curso de bordado. Num edifíco simples, sentava-se com pessoas também simples e tudo transcorria dentro de uma simplicidade calma e limpa.
Naquela terça-feira andava ela distraida pela rua em direção à sua aula de bordado. Disse olá ao porteiro e entrou no elevador. Pensava no almoço do dia seguinte, na missa que iria mais tarde, enfim seus pensamentos estavam cercados pela sua rotina. A porta do elevador se abriu e ela se deparou com o caos. Saiu do elevador e viu um boi enorme, junto a ele vários carneiros, águias voavam pela sala. Um barulho infernal de chuva atormentava seu olhar. Nas paredes enormes buracos, a cortina amarela apresentava o abismo e ela mal conseguia respirar. Diante de tamanha confusão visual reconheceu suas colegas de bordado, que sorriam de forma suave. Ninguém estava vendo o caos?, pensava ela. Não, ninguém via o que ela estava vendo. Entre vozes, ruídos de portas e o barulho da chuva ela correu para a escada. Desceu rapidamente até a portaria. Parou e fez uma oração. Pediu para Deus ilumininar e organizar o mundo. E no canto da portaria onde estava parada, suada e assustada, rezou com lágrimas nos olhos e o coração em chamas...Olhou para cima e viu o rosto de Deus imerso num furacão colorido, mergulhado numa luz caótica e brilhante. Suas pernas se desorganizaram e ela caiu desmaiada no chão.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009


Morre lentamente

"Morre Lentamente...
Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere o preto ao invés do branco,
Ou branco ao invés do preto
E os pingos nos iis à um redemoinho de emoções
Exatamente a que resgata o brilho nos olhos,
O sorriso nos lábios e coração aos tropeços
Morre lentamente quem não vira a mesa
quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto
para ir atrás de um sonho
Morre lentamente quem não se permite,
Pelo menos uma vez na vida,
Ouvir conselhos sensatos
Morre lentamente quem não viaja,
Não lê, não ouve música,
Quem não encontra graça em si mesmo
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se
Da sua má sorte, ou da chuva incessante
Morre lentamente quem destrói seu amor próprio,
Quem não se deixa ajudar
Morre lentamente quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
Nunca pergunta sobre um assunto que desconhece,
E nem responde quando lhe perguntam sobre algo que sabe
Evitemos a morte em suaves porções,
Recordando sempre que estar vivo exige
Um esforço muito maior que o simples ar que respiramos
Somente com infinita paciência
Conseguiremos a verdadeira felicidade"
Pablo Neruda

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

domingo, 25 de janeiro de 2009

Philia

Eram três camas de bonecas. Três pequeninas camas, num quarto limpo e pequenino, numa casa grande com um jardim enorme. E duas flores adentraram pela casa e subiram as escadas e deitaram cada flor em uma pequenina e aconchegante cama de boneca. E paz ali entrou. Os impasses da vida que eram angustiantes e grandes ficaram menores do que a pequenina cama. E veio o sono, tranquilo, suave, natural. Eram duas flores diferentes, cada uma com seu perfume, com suas cores, com seu tecido. Havia tanto amor entre aquelas duas flores, um amor fraternal, um amor para além de qualquer palavra e de qualquer realidade. Um amor que não era o peso do mundo, mas que aliviava suavemente o peso de existir.

sábado, 24 de janeiro de 2009


Thânatos

Ela sempre buscou a morte, desde muito cedo, desde que sentiu ter dentro de si uma certa individualidade. Individualidade já era morte, pois ser indivíduo é ser só, assim Birna pensava. E só sentia-se bem quando ia ao cinema, lá todos estavam mortos, a luz se apagava junto com todas as individualidades. E assim a vida foi passando e várias mortes se aproximavam, beijando a doce face de Birna. Ela não era triste, os que a conheciam se alegravam com sua presença, era leve, muito leve. Mas a sua leveza era uma simples pintura de sua pele alva. Birna conhecia a profundidade de suas constelações interiores, conhecia seus labirintos e suas muitas imagens estavam sempre passeando por eles. E por isso, a cada dia ela pensava na morte. Pensava que morrer muitas vezes é uma dádiva. Mas, a morte, trapaceira, brincava com Birna, passava por ela, fazia-lhe carícias e ia embora. Não ia para longe, ficava sempre no horizonte do olhar de Birna. E ela que desejou sempre uma morte rápida e prematura, morreu aos noventa e oito anos, de forma lenta e gradual. Antes de cerrar os olhos Birna entendeu que tinha mesmo que percorrer um longo caminho para sentir o beijo mais doce de todos, o beijo da paz absoluta, do esquecimento total, o beijo que dissolveu, finalmente, sua individualidade.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Certezas incertas

Eram ambos engenheiros navais. Se conheceram na empresa, os dois trabalhavam lá. Se encantaram um pelo outro. As conversas eram longas, intensas e profundas, as vezes duravam mais do que cinco horas. Gostavam das mesmas coisas e a comunicação entre eles desde o primeiro encontro era uma certeza. Das muitas afinidades havia uma que chamava a atenção: não gostavam de compromisso, não pensavam em casamento, ou em um namoro normal. Tudo menos a normalidade: era o lema da relação. Ele era mais velho do que ela onze anos e meio e isso era muito significativo. Ele já havia vivido experiências que ela nunca havia imaginado. Não era nada secreto, obscuro, eram experiências daquelas que marcam o rosto da gente, que deixam as fendas interiores mais ásperas. Ela não entendia isso, não podia entender, seu temperamento não era intenso, nem trágico, como o dele. E durante anos o nammuio aconteceu. As vezes se interrompia brevemente. E eles sabiam porque: toda vez que a relação exigia mais compromisso do que diversão, a corda imaginária que existia entre eles se rompia. Estar de fato comprometido era fora de cogitação para ambos. Então, não eram companheiros no sentido largo da palavra, eram amigos, bons amigos, bons amantes, mas não eram companheiros de forma alguma. Mas havia muito amor entre os dois. Eis que um dia o inesperado aconteceu: ele se apaixonou por uma outra mulher. Ela não gostava das mesmas coisas que ele, ela era inclusive mais velha do que ele, e acomunicação entre eles não era uma certeza, não passava de uma simples aposta. Mas, ela era um porto seguro, ela não o deixava nos piores momentos e o mais importante: ela não deixava que ele a deixasse nos piores momentos. E eles foram morar juntos e durante anos tiveram uma relação de confiança, de amor, de cumplicidade e de companheirismo.
Anna continuou no mesmo emprego e embora tivesse sofrido muito com o término da sua relação com Edgar, ela seguiu adiante, ela sabia que não havia problemas, afinal ela tinha onze anos e meio de crédito.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Carpe diem

"Confias no incerto amanhã?
Entregas às sombras do acaso a resposta inadiável?
Aceitas que a diurna inquietação da alma substitua
o riso claro de um corpo que te exige o prazer?
Fogem-te, por entre os dedos, os instantes;
e nos lábios dessa que amaste morre um fim de frase,
deixando a dúvida definitiva. Um nome inútil persegue
a tua memória, para que o roubes ao sono dos sentidos.
Porém, nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio. Então, por que esperas
para sair ao encontro da vida, do sopro quente da primavera,
das margens visíveis do humano? "Não", dizes, "nada me obrigará
à renúncia de mim próprio --- nem esse olhar que me oferece
o leito profundo da sua imagem!" Louco, ignora que o destino,
por vezes, se confunde com a brevidade do verso."
Nuno Judice

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009


Beijo

Foi um encontro de negócios, como tantos outros. Porém a surpresa: ele me beijou. Não foi nem um beijo longo, nem um beijo curto, nem na boca, nem nas folhas, muito menos nas raízes. Foi no tronco, de forma inesperada e leve. E a leveza foi o pior de tudo. Como um humano ousa fazer algo inesperado de forma leve? Não sabem que nós árvores, somos parceiras do sexo feminino, e não admitimos a falta de comando? Dominação, surpresa e leveza é inadimissível para alguém da nossa espécie. Mas, os homens não sabem disso. Não sabem o poder de um simples beijo no tronco. Quantas abstrações em virtude de uma ação desmedida, leve e inofensiva como essa. Quantas interpretações psíquicas e afetivas. E no final, estamos na mesma, paradas, com raízes e nada mudou.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Desassossego de saudade...

"Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angustia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida. Caras que via habitualmente nas minha ruas habituais - se deixo de vê-las entristeço; não me foram nada, a não ser símbolo de toda vida."´(Fernando Pessoa, Livro do Desasossego)

Filosofia condensada numa prosa poética.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Olhos azuis

Aqueles olhos azuis, de uma azul incomum, sempre desconcertaram Marta. Ela que não acreditava nem em Deus, nem no homem, nem em nada que fosse místico, sentia-se ameaçada por aqueles olhos, aquele olhar. Era um olhar que a remetia imediatamente para o idiota, Míchkin, do livro de Dostoiévski. E ela sabia o por quê. Naquele olhar não havia nenhum resquício de maldade, de crueldade, de pervesidade, era o olhar de um homem límpido, bom, como ela um dia imaginou o príncipe Míchkin.
Mensalmente Marta tinha que se colocar na frente dequeles olhos. No dia anterior ao encontro, ela sempre ficava nervosa, tinha dores estomacais, suores noturnos, um mal-estar terrível. Ele era o seu médico há mais de dez anos. Há dez anos a história era a mesma, ela levava os exames no dia quatro de cada mês, falava um pouco sobre sua vida, seu trabalho e ficava mesmo era pensando durante todo o tempo no significado daquele olhar. Saia sempre com muita raiva do consultório. Aquele olhar a deixava tão inquieta que ela precisava buscar um sentido. Ela já havia percebido que se tornara religiosa, acreditava na pureza, na falta de maldade no homem, só por causa daquele "maldito" olhar. Ele a adoecia, ela era racional demais para conceber tais pensamentos.
Eis que um dia Marta foi salva. Tudo aconteceu quando ela entrou numa galeria de arte, (ela fazia isto com certa frequência), dessa vez foi diferente. Olhou diversos quadros e parou diante de um, é impossível descrevê-lo, mas tinha algo de Monet. Era de uma beleza arrebatadora. E Marta percebeu que experimentava os mesmos sentimentos quando encontrava seu médico. Não era misticismo, era a beleza daquele azul naquele rosto tão bem desenhado que a desconcertava. Sim, ela entendeu tudo: se aquela face estivesse exposta na galeria, não seria desconcertante, seria "apenas" de uma beleza inconcebível. E Marta sentiu-se livre de todo e qualquer misticismo, religiosidade, Marta entendeu que a beleza não tem sentido algum, não tem valores morais, tem somente a capacidade de despertar no homem uma afetividade estética.

sábado, 3 de janeiro de 2009


O tempo/ der Zeit

Paulo era um sujeito que gostava de viver. Embora desde muito cedo a vida tenha lhe mostrado seus densos e tenebrosos limites, a vida no auge dos seus quarenta anos ainda o fascinava muito. Ele não gostava muito de bichos, mas era um apaixonado pela pessoas. Toda e qualquer pessoa causava nele uma admiração profunda e quase absoluta. Um dia, Paulo conheceu Mathias que era cinquenta anos mais velho do que ele. Ficou fascinado. As rugas que compunham o rosto de Mathias despertavam um amor imenso em Paulo. Não era um amor erótico, não. Era um amor sublime. Ele olhava para aquelas rugas e imaginava que cada uma delas continha um história, de encontro, de desencontro e sobretudo de superação. E os dois se tornaram grandes amigos em algumas poucas semanas. Tinham uma afinidade de alma. Em pouco tempo surgiu uma bela amizade, os dois quando juntos estapavam confiança mútua, sintonia, cumplicidade. E Paulo conheceu os muitos filhos de Mathias. Era bem interessante. Todos, em um determinado momento, faziam a mesma pergunta: "Há quanto tempo conhece nosso pai?". E Paulo respondia. E em seguida vinha o olhar sempre perplexo, não entendiam como uma amizade que parecia ter anos, tinha na verdade tão poucos dias. E Paulo conheceu os amigos de Mathias e a mesma pergunta se repetia e a mesma perplexidade se seguia a resposta. E Paulo entendia, entendia que na maioria das vezes, o encanto, o respeito e a cumplicidade vem depois de muito tempo de convivência. E lembrava que seus amigos sempre lhe diziam que ele era encantador e que por isso as pessoas gostavam tanto dele em tão pouco tempo. Paulo não sabia disso, sabia com toda profundidade que ele sim, era encantado pelas pessoas, pelas histórias dessas pessoas, pelo caminhar delas pela vida. Sabia também ter herdado do seu tio-avô uma relação diferente com o tempo, ele não se peocupava com a extensão do tempo, mas sim, com a fecundidade e a profundidade de cada momento.

Para o Ano Novo

Ano Novo, vida nova? Pode até ser. Mas, para mim, vale a máxima: Ano Novo, amor antigo renovado! Começar o ano, só se for com ele, meu grande amor...nossa, já passamos por tantas coisas...Nesses 17 anos, já fui absolutamente encantada por ele, já namoramos, noivamos e casamos e todos sabem: casamento não é fácil. Enxergamos bem os defeitos do outro. Já me afastei dele, já chorei com ele e por ele...enfim, hoje temos um relacionamento maduro e eu resignifiquei a nossa história de amor. Então, começo o ano novo com uma das mais belas citações do meu grande amor:


"Para o Ano Novo – Eu ainda vivo, eu ainda penso: ainda tenho de viver, pois eu ainda tenho de pensar. Sun ergo cogito: cogito, ergo sum [Eu sou, portanto penso: eu penso, portanto sou]. Hoje, cada um se permite expressar o seu mais caro desejo e pensamento: também eu, então, quero dizer o que desejo para mim mesmo e que pensamento, este ano me veio primeiro ao coração – que pensamento deverá ser para mim razão, garanti e doçura de toda vida que me resta! Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas – assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas. Amor fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo ausar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!" (NIETZSCHE, Gaia Ciência)