sábado, 24 de janeiro de 2009

Thânatos

Ela sempre buscou a morte, desde muito cedo, desde que sentiu ter dentro de si uma certa individualidade. Individualidade já era morte, pois ser indivíduo é ser só, assim Birna pensava. E só sentia-se bem quando ia ao cinema, lá todos estavam mortos, a luz se apagava junto com todas as individualidades. E assim a vida foi passando e várias mortes se aproximavam, beijando a doce face de Birna. Ela não era triste, os que a conheciam se alegravam com sua presença, era leve, muito leve. Mas a sua leveza era uma simples pintura de sua pele alva. Birna conhecia a profundidade de suas constelações interiores, conhecia seus labirintos e suas muitas imagens estavam sempre passeando por eles. E por isso, a cada dia ela pensava na morte. Pensava que morrer muitas vezes é uma dádiva. Mas, a morte, trapaceira, brincava com Birna, passava por ela, fazia-lhe carícias e ia embora. Não ia para longe, ficava sempre no horizonte do olhar de Birna. E ela que desejou sempre uma morte rápida e prematura, morreu aos noventa e oito anos, de forma lenta e gradual. Antes de cerrar os olhos Birna entendeu que tinha mesmo que percorrer um longo caminho para sentir o beijo mais doce de todos, o beijo da paz absoluta, do esquecimento total, o beijo que dissolveu, finalmente, sua individualidade.

Um comentário:

Unknown disse...

PUTA QUE PARIU! Até ler a idade de Birna achei que era eu... mas depois tive que contar a minha própria idade... que coisa estranha e deliciosa!!! Vc é demais! E antes do primeiro beijo que a morte deu em Birna, claudinha, o último daqui, foi seu! Meu coração fica, desde então em paz... saca?