"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo. " (Clarice!)
sábado, 25 de abril de 2009
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Spinoza, Derrida e a academia

Sempre imaginei que a academia fosse uma deliciosa torre de babel. Imaginei que as diversas línguas lá faladas possibilitassem um enriquecimento sem igual ao nosso olhar. Imaginem: ouvir uma língua desconhecida, falada por alguém que ama o saber, isso na minha ingênua visão só poderia enriquecer e multiplicar as nossas perspectivas sobre o processo de conhecimento, sobre pensadores entre outras coisas. As experiências me revelaram a face da babel confusa e frágil.
Acordei ontem pensando nessas questões e em Spinoza. Não pensava na face genial do filósofo mais na face mais próxima de todos nós que gostamos de conhecer. Spinoza passou a vida polindo lentes, não deu aulas em nenhuma academia, dedicava-se a sua paixão pelo conhecimento de forma relativamente solitária. Eu estava levando em consideração a possibilidade de aprender um novo ofício, polir lentes. Fui para a faculdade nesse clima de futura polidora de lentes. Mas, tive uma grata surpresa...asssisti uma aula sobre Derrida ministrada por Nabil Araújo. Um acadêmico sério, inteligentíssimo e muito hábil. Imaginem o que é tornar Derrida didático? Tarefa para um Titã. Derrida que tem um pesamento escorregadio, muitas vezes difícil. Pois Nabil ensinou muito sobre Derrida sem reduzir o pensamento dele. Mostrando total clareza sobre o que falava, Nabil não tentava arrebatar o ouvintes (de forma egóica como costumam ser alguns palestrantes) e nem arrebanhar discípulos. Voltei para casa pensando que talvez aprender polir lentes não fosse mais necessário.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Entre os muros da escola
Um bom filme, apesar de ser um pouco lento para meu gosto. O ator principal atua de uma maneira perfeita. Ele é um professor que dá aulas para meninos que moram na periferia de Paris. Pessoas que não participam do glamour da bela cidade. Questões como: para que serve a escola? e, como ser um bom professor? permeiam a narrativa. Acho que o ponto mais interessante do filme é: qual é o papel dos marginalizados numa sociedade que aparentemente funciona bem? E mais: sendo o professor supostamente um homossexual, ele também estaria no mesmo patamar dos alunos? sábado, 18 de abril de 2009
Seja mulher

Para meu amigo Fábio F.
Há muito tempo queria se livrar daquele cristianismo decandente que habitava um remoto espaço da sua psíque. A hora era aquela, tinha que ser mulher para isso. Lá estava ela reunida com um grupo de conhecidos embriagados e na sua frente uma grande prova. Estava na África bem longe de casa e olhava com suor e tremor para um fragmento do seu objetivo. Pensava e pensava e permanecia imóvel. Era deleuziana ao extremo e do pior tipo. Acreditava estar conectada com tudo, aliás achava que ela era tudo e que tudo era ela. Reduzia o universo à sua minúscula lente reflexiva. O que mais a incomodava era o modo como via os animais. Quando adolescente não pensava neles, logo que entrou na idade adulta passou a ter um carinho extremado por eles, e em seguida passou a humanizá-los. Chorou muito quando assitiu ao Homem urso, chorou por pena de si, aprovava todos os passos do protagonista do documentário. Chegou a esse triste ponto: não via animais, via ela própria projetada neles. Por isso aquele momento, naquela noite, naquele continente era tão importante na sua história: era o momento de ser mulher, de ser mulher como um todo, de resgatar seu lado animal. Bastava um gesto simples, muito simples. De uma simplicidade aterrorizante. Alguns a sua volta riam, outros dançavam, outros conversavam, ninguém percebia a seriedade daquele instante. Ela começou chorar, de uma forma muito discreta, não podia seguir adiante, não conseguia resgatar seu lado primitivo, animalesco. Não conseguia colocar em sua boca aquele petisco deliciosamente preparado: formigas pote-de-mel. Imaginava toda a trejetória daquelas formiguinhas, pobres coitadas diante de bárbaros falantes. O que fazer? Percebeu o pior: naquele exato instante não era mais deleuziana, estava apartada dos demais. E num golpe único tomou todo o copo da bebida destilada à sua frente e comeu todas as poucas e caras formigas que estavam na mesa. Soltou um uivo e pôs-se a dançar.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Belo Belo
Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Tenho o fogo das constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo-que foi? passou! - de tantas estrelas cadentes.
A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.
O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.
Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.
As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.
Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.
- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples..
Manuel Bandeira
Tenho tudo quanto quero.
Tenho o fogo das constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo-que foi? passou! - de tantas estrelas cadentes.
A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.
O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.
Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.
As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.
Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.
- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples..
Manuel Bandeira
sábado, 11 de abril de 2009
Tempestade

Abriu os olhos com muito vagar e de forma confusa e nublada tentava organizar sua percepção visual. Muitas pessoas estavam a sua volta, vozes, sussurros, diferentes cheiros, havia alguém fumando. Clara suspirou, queria silêncio, queria que o mundo parasse por apenas um minuto. Logo aproximou-se um homem de meia-idade de roupa branca e cabelos alaranjados. Pediu que todos se afastassem, Clara pressentiu: era um anjo. Somente um anjo poderia ler seus pensamentos e afastar toda aquela confusão... O anjo tocou suavemente a sua face e em seu olhar percebia-se um misto de ternura e preocupação. Clara procurava pela tal luz no túnel e nada, a única luz estava acesa bem acima de sua cabeça. O anjo balançou a cabeça e desligou dois aparelhos bem próximos. Tudo ficava mais nítido. Estava em um quarto, que foi pintado num tom de verde bem clarinho, um quarto amplo e um pouco escuro. Lembrou-se que havia morrido. Seria isso a vida após a morte? Sim, seria. E Clara sorriu. Geraldo sentou-se bem próximo e fez algumas perguntas. Ela só respondeu a primeira: seu nome. Que felicidade, não se recordava mais de nada, apenas do seu nome, algo tão insignificante e arbitrário. Finalmente havia deixado para trás todo o resto. E o melhor: tinha plena consciência disso. Sentia-se bem, estranhamente e absurdamente feliz. Pediu um espelho e viu sua face, ficou satisfeita, ainda havia um longo caminho que possivelmente seria percorrido. De outra forma, ou da mesma, que ainda sim seria outra, pela ausência da memória. As pessoas voltaram ao quarto, uma a uma, e Clara não se recordava de ninguém. Como era doce a ausência de rótulos imaginativos. Podia amar cada criatura daquela, sem saber seu nome, personalidade, aliás, queria saber apenas os nomes. Achava engraçado a relação daquelas pessoas com os nomes. Falavam vagarosamente, acreditando absolutamente que o nome tornava aquele ser único, separado do resto dos outros. Clara pensava como seria bom se todos percebessem o quão interessante é partilhar da humanidade como um todo, mas do que isso, da natureza. Não nomear nada, nem ninguém, poder ser chamdo de estrela, de mar, de céu, de Clara, de Pedro, de corpo, de alma. Como nos tornamos amáveis na medida em que dissolvemos nosso nome e nossa pseudo-identidade no todo. E Clara ria, de forma gostosa e suave a cada novo nome pronunciado. E eles também riam partilhando todos, naquele quarto verde clarinho, do grande segredo não nomeado.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
O casamento de Rachel

Se alguém deseja assistir a um filme monótono, mal dirigido e extremamente chato é só optar pelo Casamento de Rachel. Repleto de cenas desnecessárias, uma música enfadonha, com quase todas as cenas filmadas no esquema de documetário da vida privada, um pesadelo. Nem a estória é interessante, nem a paisagem é bonita, nem os personagens atuam de maneira minimamente satisfatória. Em alguns momentos percebe-se o esforço da protagonista em tornar o filme palatável, esforço que não leva a lugar nenhum além da enorme frustração do público em perder seu tempo com um filme de pouquíssima qualidade.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Pássaro
E ele veio de novo, acomodou-se em sua janela e ficou olhando para ela atentamente. Colorido, exótico e com sua estrela na boca, aparecia todos os dias quase sempre no mesmo horário e ficava por ali alguns minutos a observando. Ela sempre imersa nos afezeres do universo feminino, se assustava com aquela presença convidativa. Seu mundo era preto e branco, seguia rigidamente uma rotina. Ao lado da sua cama deixava pronta e limpa antes de dormir a sua doce máscara. Uma máscara bem desenhada que cabia de forma quase perfeita em seu rosto triangular. Uma máscara de boa moça, muito bem educada, boa mãe, ótima companhia. O pássaro oferecia outras possibilidades, oferecia uma vida diferente, na estrela que trazia no bico havia o desenho de uma outra máscara. Uma máscara que repleta de pulsão de morte mesclada com o princípio do prazer. Muitas noites aquele pássaro era companheiro de sua insônia. Poderia ela largar tudo? Poderia ela viver sem aquela máscara que usava confortavelmente todos os dias? Poderia ela se arriscar a ver o vazio da vida e do ser ao trocar de máscara? Temia que o pássaro não mais a vistasse, temia sua ausência, temia e desejava. E assim foi vivendo, anos e anos, temendo e desejando...
sábado, 4 de abril de 2009
Habermas e Nietzsche
O Discurso Filosófico da Modernidade de Habermas é um livro relativamente chato. Isso porque Habermas é pouco cuidadoso com o leitor, escreve para si e não para o outro. No capítulo que ele trata do pensamento de Nietzsche há uma série de equívocos. O primeiro deles: Habermas não reconhece a multiplicidade da filosofia nietzschiana. Ele estaciona no primeiro Nietzsche, no livro O nascimento da tragédia. Isso é problemático porque:1) sabemos que os escritos não publicados desta época (do NT) muitas vezes contradizem o filosofia/trágica/metafísica lá exposta por Nietzsche, que queria muito publicar o livro e precisava do aval de Wagner, grande influência na época; 2) seis anos mais tarde Nietzsche publica Humano demasiado humano, um livro positivista, onde Nietzsche vai romper com a concepção de arte exposta anteriormente e dar as mãos para a ciência, mostrando uma ruptura com o pensamento de Schopenhauer e com a arte wagneriana.
Habermas também mostra pouco conhecimento em relação à Dionísio na obra de Nietzsche. Dionísio não pode, ao meu ver, ser trabalhdo isoladamente. No NT há uma correspondência entre o pensamento de Schopenhauer - vontade-idéia-representação- e o pensamento de Nietzsche - uno-primordial-dionísio-apolo. Apolo e Dionisio saõ duas pulsões artísticas complementares. Dionísio só torna-se acessível pela máscara de apolo.
Poderia citar mais alguns equívocos, mas sabendo que no Discurso Filosófico da Modernidade o que está em jogo não é de fato a filosofia nietzschiana, mas como essa pode servir para Habermas chegar onde ele quer, ou seja, mostrar os pontos da sua própria filosofia que de alguma forma se relaciona com o iluminismo, não tem problema ter tanta coisa fora do lugar.
Habermas também mostra pouco conhecimento em relação à Dionísio na obra de Nietzsche. Dionísio não pode, ao meu ver, ser trabalhdo isoladamente. No NT há uma correspondência entre o pensamento de Schopenhauer - vontade-idéia-representação- e o pensamento de Nietzsche - uno-primordial-dionísio-apolo. Apolo e Dionisio saõ duas pulsões artísticas complementares. Dionísio só torna-se acessível pela máscara de apolo.
Poderia citar mais alguns equívocos, mas sabendo que no Discurso Filosófico da Modernidade o que está em jogo não é de fato a filosofia nietzschiana, mas como essa pode servir para Habermas chegar onde ele quer, ou seja, mostrar os pontos da sua própria filosofia que de alguma forma se relaciona com o iluminismo, não tem problema ter tanta coisa fora do lugar.
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