sábado, 11 de abril de 2009

Tempestade


Abriu os olhos com muito vagar e de forma confusa e nublada tentava organizar sua percepção visual. Muitas pessoas estavam a sua volta, vozes, sussurros, diferentes cheiros, havia alguém fumando. Clara suspirou, queria silêncio, queria que o mundo parasse por apenas um minuto. Logo aproximou-se um homem de meia-idade de roupa branca e cabelos alaranjados. Pediu que todos se afastassem, Clara pressentiu: era um anjo. Somente um anjo poderia ler seus pensamentos e afastar toda aquela confusão... O anjo tocou suavemente a sua face e em seu olhar percebia-se um misto de ternura e preocupação. Clara procurava pela tal luz no túnel e nada, a única luz estava acesa bem acima de sua cabeça. O anjo balançou a cabeça e desligou dois aparelhos bem próximos. Tudo ficava mais nítido. Estava em um quarto, que foi pintado num tom de verde bem clarinho, um quarto amplo e um pouco escuro. Lembrou-se que havia morrido. Seria isso a vida após a morte? Sim, seria. E Clara sorriu. Geraldo sentou-se bem próximo e fez algumas perguntas. Ela só respondeu a primeira: seu nome. Que felicidade, não se recordava mais de nada, apenas do seu nome, algo tão insignificante e arbitrário. Finalmente havia deixado para trás todo o resto. E o melhor: tinha plena consciência disso. Sentia-se bem, estranhamente e absurdamente feliz. Pediu um espelho e viu sua face, ficou satisfeita, ainda havia um longo caminho que possivelmente seria percorrido. De outra forma, ou da mesma, que ainda sim seria outra, pela ausência da memória. As pessoas voltaram ao quarto, uma a uma, e Clara não se recordava de ninguém. Como era doce a ausência de rótulos imaginativos. Podia amar cada criatura daquela, sem saber seu nome, personalidade, aliás, queria saber apenas os nomes. Achava engraçado a relação daquelas pessoas com os nomes. Falavam vagarosamente, acreditando absolutamente que o nome tornava aquele ser único, separado do resto dos outros. Clara pensava como seria bom se todos percebessem o quão interessante é partilhar da humanidade como um todo, mas do que isso, da natureza. Não nomear nada, nem ninguém, poder ser chamdo de estrela, de mar, de céu, de Clara, de Pedro, de corpo, de alma. Como nos tornamos amáveis na medida em que dissolvemos nosso nome e nossa pseudo-identidade no todo. E Clara ria, de forma gostosa e suave a cada novo nome pronunciado. E eles também riam partilhando todos, naquele quarto verde clarinho, do grande segredo não nomeado.

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