quarta-feira, 8 de abril de 2009

Pássaro

E ele veio de novo, acomodou-se em sua janela e ficou olhando para ela atentamente. Colorido, exótico e com sua estrela na boca, aparecia todos os dias quase sempre no mesmo horário e ficava por ali alguns minutos a observando. Ela sempre imersa nos afezeres do universo feminino, se assustava com aquela presença convidativa. Seu mundo era preto e branco, seguia rigidamente uma rotina. Ao lado da sua cama deixava pronta e limpa antes de dormir a sua doce máscara. Uma máscara bem desenhada que cabia de forma quase perfeita em seu rosto triangular. Uma máscara de boa moça, muito bem educada, boa mãe, ótima companhia. O pássaro oferecia outras possibilidades, oferecia uma vida diferente, na estrela que trazia no bico havia o desenho de uma outra máscara. Uma máscara que repleta de pulsão de morte mesclada com o princípio do prazer. Muitas noites aquele pássaro era companheiro de sua insônia. Poderia ela largar tudo? Poderia ela viver sem aquela máscara que usava confortavelmente todos os dias? Poderia ela se arriscar a ver o vazio da vida e do ser ao trocar de máscara? Temia que o pássaro não mais a vistasse, temia sua ausência, temia e desejava. E assim foi vivendo, anos e anos, temendo e desejando...

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