
Para meu amigo Fábio F.
Há muito tempo queria se livrar daquele cristianismo decandente que habitava um remoto espaço da sua psíque. A hora era aquela, tinha que ser mulher para isso. Lá estava ela reunida com um grupo de conhecidos embriagados e na sua frente uma grande prova. Estava na África bem longe de casa e olhava com suor e tremor para um fragmento do seu objetivo. Pensava e pensava e permanecia imóvel. Era deleuziana ao extremo e do pior tipo. Acreditava estar conectada com tudo, aliás achava que ela era tudo e que tudo era ela. Reduzia o universo à sua minúscula lente reflexiva. O que mais a incomodava era o modo como via os animais. Quando adolescente não pensava neles, logo que entrou na idade adulta passou a ter um carinho extremado por eles, e em seguida passou a humanizá-los. Chorou muito quando assitiu ao Homem urso, chorou por pena de si, aprovava todos os passos do protagonista do documentário. Chegou a esse triste ponto: não via animais, via ela própria projetada neles. Por isso aquele momento, naquela noite, naquele continente era tão importante na sua história: era o momento de ser mulher, de ser mulher como um todo, de resgatar seu lado animal. Bastava um gesto simples, muito simples. De uma simplicidade aterrorizante. Alguns a sua volta riam, outros dançavam, outros conversavam, ninguém percebia a seriedade daquele instante. Ela começou chorar, de uma forma muito discreta, não podia seguir adiante, não conseguia resgatar seu lado primitivo, animalesco. Não conseguia colocar em sua boca aquele petisco deliciosamente preparado: formigas pote-de-mel. Imaginava toda a trejetória daquelas formiguinhas, pobres coitadas diante de bárbaros falantes. O que fazer? Percebeu o pior: naquele exato instante não era mais deleuziana, estava apartada dos demais. E num golpe único tomou todo o copo da bebida destilada à sua frente e comeu todas as poucas e caras formigas que estavam na mesa. Soltou um uivo e pôs-se a dançar.
2 comentários:
Como sempre, muito bom! Parabéns pelo blog fantástico.
Ah, resolvi não fazer nenhuma piadinha com o fato de um texto chamado "Seja mulher" ser dedicado a mim. Sou um cara muito sério.
Abraço!
Fábio, que loucura!!! Sua masculinidade é algo tão inquestionável para mim, que esqueci que o título do texto daria margem a outra interpretação.
Para os curiosos de plantão o Fábio tem um blog com diversos textos fantásticos e entre eles um chamado "Seja Homem". O meu texto é uma tentativa de diálogo com esse texto do Fábio. O endereço do blog dele é:
www.gottamakeitrain.wordpress.com
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