domingo, 29 de março de 2009


Liberdade

Deitada na grama e coberta por ela, observava o céu. Na terra duas coisas a fascinavam absurdamente: o céu e os olhos. Do céu amava a imensidão, o não mensurável, o azul, as nuvens, as posibilidades que ali se anuciavam. Os olhos representavam a mesma coisa, não importava o formato deles, importava a imensidão, a vida, a luz, mais do que a vida, a vivacidade pulsante.
E ela pensava na vida, a vida vazia e oca que não foi feita para pensar. Ela pensava justamente isso: "pensar é estar doente dos olhos." Queria ser como uma nuvem e ir de acordo com o vento, uma nuvem sem ego, uma nuvem liberta e cósmica, uma nuvem leve e viva.

terça-feira, 17 de março de 2009

Foi apenas um sonho

Um filme muito bom. Gostei de como o feminino foi trabalhado. Feminino como desejo, como busca, como desilusão. Quando a protagonista olha a foto do marido em Paris e se lembra de que ele sonhou um dia em voltar para lá, inicia sua busca de realização. Realização de quê? A princípio do desejo do outro e não do desejo dela. Mas, de repente ambos os desejos se encontram, o desejo de desejar o que o outro deseja e o desejo próprio, desta mulher que quer romper com a monotonia de sua vida. Uma mulher reprimida, não realizada. Não consegue ser a atriz que desejava, não consegue ser feliz em seu casamento. Paris representa uma retomada de velhos sonhos, uma vida nova repleta de surpresas. O único personagem que conseguem perceber a representação simbólica de Paris é um louco, um marginalizado, tão marginalizado quanto esse feminino. A margem da vida, da ação, e ao mesmo tempo no centro do poder, poder do outro sobre ela.
Outro aspecto interessante do filme: como se inicia uma relação que pode durar anos. Num encontro banal, trocando palavras e sorrisos, as coisas vão acontecendo e as pessoas vão entrando em papéis culturais. Namorados, maridos, esposas, amantes. Fiquei pensando num relacionamento que se iniciasse de forma diferente. No primeiro encontro apenas o desejo, o olhar. Depois as palavras, a descoberta de infinitas afinidades. Depois a lembrança da diferença: o outro é sempre outro e por causa disso não posso depositar nele todos os meus sonhos e esperanças. O sonho não pode ser o outro, o sonho deve ser driblar a morte na companhia desse outro. Parece que a noção de alteridade vai se perdendo ao longo das tradicionais relações amorosas.
Outra coisa que me chamou a atenção; é um filme que vai contra uma idéia de Freud. A gravidez para o pensador austríaco é a fase na qual a mulher se sente mais fálica, mas plena. Provavelmente essa afirmação de Freud foi feita por que ele não ficou grávido. Como mostra muito bem o filme na gravidez é que o vazio da vida se torna mais ácido e corrosivo. A mulher torna-se fálica quando o filho está fora da sua barriga, aí sim, há um relâmpago de completude quase absoluta.

segunda-feira, 16 de março de 2009

domingo, 15 de março de 2009

Lua

Completamente nua olhava a lua pela janela. Estava no sétimo andar do prédio. Luzes apagadas. Um vento suave enconstava em seu rosto. Estava feliz. Tinha uma intimidade estranha com a lua, como a maioria das mulheres. A lua que mudava as marés e o humor feminino. A lua que era homenageada durante os períodos de romance e esquecida na rotina pesada do dia-a-dia. Lembrava-se da última viagem para Grécia, do passeio de navio, da visita à Atenas, das muitas noites agradáveis. Ouviu um barulho bem próximo: era Kant, seu cãozinho de estimação que se aproximava. Kant não conhecia nenhum imperativo categórico, apenas os hipotéticos e desses, os problemáticos. Moravam no apartamento somente os dois: ela e Kant. Mergulhada em pensamentos leves e complexos assistiu ao inusitado. Seu quarto foi inundado por inúmeros papéis. De onde vinham? Pegou alguns: poesia...pura poesia. Rilke, Nietzsche, Cecília, Drumond, Cabral, Bandeira...Todos estavam lá, ao lado dela e de Kant. Melissa sorria docemente. Sabia que era um recado, mas não queria responder. Não queria dizer nada, queria apenas continuar sentindo a plenitude...amparada pela lua, acompanhada por seu cãozinho hipotético e pelos seus grande amigos...

domingo, 8 de março de 2009

Sobre o amor - Rilke - 1904

"Amar também é bom: porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas preparação. Por isso as pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo, não sabem amar: tem que aprendê-lo.Com todo o seu ser, com todas as suas forças concentradas em seu coração solitáro, medroso e palpitante, devem aprender a amar. Mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura. Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente? O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, por causa de um outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe. Do amor que lhes é dado, os jovens deveriam servir-se unicamente como um convite para trabalhar em si mesmo ("escutar e martelar dia e noite"). A fusão com outro, a entrega de si, toda espécie de comunhão não são para eles (que deverão durante muito tempo juntar muito, entesourar); são algo de inacabado para o qual, talvez, mal chegue atualmente a vida humana."

sexta-feira, 6 de março de 2009


Um novo dia...

No final do dia ela estava exausta. Mais de dez pacientes haviam deitado no divã naquela quinta. E a noite não poderia deixar de comparecer à exposição de sua grande amiga. Trancou a porta do consultório, deitou-se no divã e olhando para o teto deixou sua mente navegar sem destino certo. Pensou nas leituras que ainda queria fazer naquele dia, nos afazeres do dia seguinte, no cansaço que estava sentindo e nas amizades que fez ao longo da vida. Lembrou da protagonista do Leitor, filme assitido ainda naquela semana. Uma figura chapada e fria, sem profundidade, nem complexidade. Ela não conseguia achar pontos de contato com aquele tipo de personalidade. Era como seu país, tropical, permeado pela umidade, pelo exagero do céu extremamente azul e do dia absolutamente quente. Sabia dos seus muitos defeitos, mas entre eles não estava a frieza excessiva. Emocionada se recordou de uma grande amiga, que a vida, ou melhor, a morte encarregou-se de levar. Pensava em quão difícil era perder as pessoas. Se relação com outro não fosse um problema constante no existir, seu consultório estaria vazio.
Os quadros expostos eram de uma beleza cujas palavras não alcançam. Sua amiga estava plenamente feliz. Muitos convidados admiravam as obras. De repente, foi tocada no ombro por Joana. Um frio percorreu sua espinha. Nunca foi boa em disfarces e por mais que quisesse não podia sorrir para aquela criatura. No passado foram grandes amigas. Mas, pouco depois de superar a traição do marido, Joana seguiu o mesmo percurso, e Sofia que ainda se livrava do gosto amargo da traição sentiu seu gosto ainda mais intenso. Foi um período difícil, já superado, jamais esquecido. Joana nunca entedeu o fim da amizade. Não podia. Em sua cabeça e em seu coração não havia espaço para inclusão. Amizade, para Joana significava apenas compartilhar boas risadas e algumas lágrimas, nada além disso. Joana carregava o peso da solidão, não conseguia fazer laços afetivos, tinha uma patologia: abandonar as pessoas e fazia isso da maneira mais egoísta possível. Era incapaz de dividir algo, de compartilhar. Sua marca, sua tatuagem estampada no corpo era a solidão. E ela achava isso muito bonito. Ser só, ser independente, ser demais, não precisar de ninguém. Sofia não podia suportar aquele temperamento fálico por muito tempo, e a amizade durou pouco. Sofia chorou, expôs sua perda no divã, mas seguiu adiante. E depois de anos lá estava aquele fálica mulher. Sorrindo, como se nenhum episódio ácido houvesse se passado entre elas. Sofia pegou sua bolsa e sem dizer nenhuma palavra foi embora. O cansaço impediu que qualquer pensamento amargo invadisse suas muitas reflexões e o mais importante: nenhuma gota daquela decepção tão antiga foi capaz de inundar seu coração.

quarta-feira, 4 de março de 2009


Descoberta

Naquele dia ela descobriu que o amor situava-se entre a vaidade e a indiferença. Roberto ficou por apenas dez minutos em sua casa, tempo suficiente para pegar umas coisas e dizer um olá. Ela olhou atentamente aquele companheiro de mais de vinte anos. Percebeu como ele havia envelhecido e ela também, mas algo no olhar conservava um amor juvenil. Mas, juvenil mesmo eram as muitas paixóes que ela sempre carregou. Era uma alma que muito se apaixonava. Podia ser por um dia ou três anos, pode ia ser por um livro, por um pensador ou por alguém. Ela sabia que precisa das muitas paixões e ele também. As muitas paixões a levavam pelas sendas do mistério e da imaginação. Mas a face do sagrado ela só beijava através do amor que sentia por Roberto. Pensava muito nele, mas sem fantasia, sem mistério, por isso achava que o amor se localizava entre a vaidade e indiferença. E acreditava também que o amor era um vazio concreto que carregava o peso do mundo.