No final do dia ela estava exausta. Mais de dez pacientes haviam deitado no divã naquela quinta. E a noite não poderia deixar de comparecer à exposição de sua grande amiga. Trancou a porta do consultório, deitou-se no divã e olhando para o teto deixou sua mente navegar sem destino certo. Pensou nas leituras que ainda queria fazer naquele dia, nos afazeres do dia seguinte, no cansaço que estava sentindo e nas amizades que fez ao longo da vida. Lembrou da protagonista do Leitor, filme assitido ainda naquela semana. Uma figura chapada e fria, sem profundidade, nem complexidade. Ela não conseguia achar pontos de contato com aquele tipo de personalidade. Era como seu país, tropical, permeado pela umidade, pelo exagero do céu extremamente azul e do dia absolutamente quente. Sabia dos seus muitos defeitos, mas entre eles não estava a frieza excessiva. Emocionada se recordou de uma grande amiga, que a vida, ou melhor, a morte encarregou-se de levar. Pensava em quão difícil era perder as pessoas. Se relação com outro não fosse um problema constante no existir, seu consultório estaria vazio.
Os quadros expostos eram de uma beleza cujas palavras não alcançam. Sua amiga estava plenamente feliz. Muitos convidados admiravam as obras. De repente, foi tocada no ombro por Joana. Um frio percorreu sua espinha. Nunca foi boa em disfarces e por mais que quisesse não podia sorrir para aquela criatura. No passado foram grandes amigas. Mas, pouco depois de superar a traição do marido, Joana seguiu o mesmo percurso, e Sofia que ainda se livrava do gosto amargo da traição sentiu seu gosto ainda mais intenso. Foi um período difícil, já superado, jamais esquecido. Joana nunca entedeu o fim da amizade. Não podia. Em sua cabeça e em seu coração não havia espaço para inclusão. Amizade, para Joana significava apenas compartilhar boas risadas e algumas lágrimas, nada além disso. Joana carregava o peso da solidão, não conseguia fazer laços afetivos, tinha uma patologia: abandonar as pessoas e fazia isso da maneira mais egoísta possível. Era incapaz de dividir algo, de compartilhar. Sua marca, sua tatuagem estampada no corpo era a solidão. E ela achava isso muito bonito. Ser só, ser independente, ser demais, não precisar de ninguém. Sofia não podia suportar aquele temperamento fálico por muito tempo, e a amizade durou pouco. Sofia chorou, expôs sua perda no divã, mas seguiu adiante. E depois de anos lá estava aquele fálica mulher. Sorrindo, como se nenhum episódio ácido houvesse se passado entre elas. Sofia pegou sua bolsa e sem dizer nenhuma palavra foi embora. O cansaço impediu que qualquer pensamento amargo invadisse suas muitas reflexões e o mais importante: nenhuma gota daquela decepção tão antiga foi capaz de inundar seu coração.
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