terça-feira, 17 de março de 2009

Foi apenas um sonho

Um filme muito bom. Gostei de como o feminino foi trabalhado. Feminino como desejo, como busca, como desilusão. Quando a protagonista olha a foto do marido em Paris e se lembra de que ele sonhou um dia em voltar para lá, inicia sua busca de realização. Realização de quê? A princípio do desejo do outro e não do desejo dela. Mas, de repente ambos os desejos se encontram, o desejo de desejar o que o outro deseja e o desejo próprio, desta mulher que quer romper com a monotonia de sua vida. Uma mulher reprimida, não realizada. Não consegue ser a atriz que desejava, não consegue ser feliz em seu casamento. Paris representa uma retomada de velhos sonhos, uma vida nova repleta de surpresas. O único personagem que conseguem perceber a representação simbólica de Paris é um louco, um marginalizado, tão marginalizado quanto esse feminino. A margem da vida, da ação, e ao mesmo tempo no centro do poder, poder do outro sobre ela.
Outro aspecto interessante do filme: como se inicia uma relação que pode durar anos. Num encontro banal, trocando palavras e sorrisos, as coisas vão acontecendo e as pessoas vão entrando em papéis culturais. Namorados, maridos, esposas, amantes. Fiquei pensando num relacionamento que se iniciasse de forma diferente. No primeiro encontro apenas o desejo, o olhar. Depois as palavras, a descoberta de infinitas afinidades. Depois a lembrança da diferença: o outro é sempre outro e por causa disso não posso depositar nele todos os meus sonhos e esperanças. O sonho não pode ser o outro, o sonho deve ser driblar a morte na companhia desse outro. Parece que a noção de alteridade vai se perdendo ao longo das tradicionais relações amorosas.
Outra coisa que me chamou a atenção; é um filme que vai contra uma idéia de Freud. A gravidez para o pensador austríaco é a fase na qual a mulher se sente mais fálica, mas plena. Provavelmente essa afirmação de Freud foi feita por que ele não ficou grávido. Como mostra muito bem o filme na gravidez é que o vazio da vida se torna mais ácido e corrosivo. A mulher torna-se fálica quando o filho está fora da sua barriga, aí sim, há um relâmpago de completude quase absoluta.

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