sábado, 27 de dezembro de 2008


Helenismo & Cristianismo

Em seu artigo: "As duas mutações de Nietzsche", Gíacóia aproxima o pensamento socrático ao pensamento cristão. Esta aproximação é recorrente, tendo em vista que ao falarmos de pensamento socrático estamos falando de platonismo, uma vez que nada de escrito foi deixado por Sócrates. As semelhanças entre o platonismo e a religião católica são muitas e óbvias. Mas, fiquei pensando naquilo que as diferencia. Se com Sócrates o mundo helênico deixa de ser trágico e mítico para absorver o racionalismo. O racionalismo socrático é um racionalismo que ainda percebe o homem de maneira mítica. Se o homem virtuoso é o homem feliz, acredita-se num homem suficiente. No cristianismo temos outra visão do homem: o homem deve ser virtuoso não somente para aproxiamr-se do bem e da felicidade, mas principalmente para aproximar-se do sagrado: única fonte de verdadeira redenção para o homem insuficiente. Diferente do platonismo, onde a salvação do homem está no próprio homem, na luz que emana da sua consciência que deve buscar o belo, o bom e o verdadeiro, alcançado pela virtude; no cristianismo a verdade é Deus. O homem não é um ser fechado, mas aberto e esta abertura, esta fenda que o levará ao sagrado.

As sem razões do amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.

Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.

Amor foge a dicionário
se a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.

Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008




Natal antecipado

Vivi meu Natal em São João, com mais de um mês de antecedência. Fui em busca de um artista: Ariano Suassuna. Se o Natal deve ser aquele tempo ínfimo no qual somos atravessados por sentimentos extremamente sublimes e belos, eu vivi o Natal ao encontrar Ariano. Eu queria conversar um pouco com ele sobre suas Iluminogravuras e o processo de criação. Conversamos sobre isso também. O meu encontro com esse homem de 81 anos anos foi um dos momentos mais intensos da minha vida. Diante de mim estava um grande artista da própria vida, um homem que perdeu o pai aos três anos e passou a vida em busca dessse pai; um homem que encontrou a felicidade depois de conhecer Zélia, seu grande amor; e um homem que apesar de todos os impasses vividos, tirou do bolso uma linda imagem de Nossa Senhora da Aparecida. Marcado pela experiência, Ariano, é um sonhador, um idealista, um crente. Crê não só em Nossa Senhora, mas na humanidade e no Brasil. Suassuna está para além de todo bem e de todo mal, é habitante de uma outra esfera, onde a criatividade jorra e a vida "é algo indomado, fera pronta para destroçar". Ariano com seus olhos de menino brinca com a tristeza e dança diante das encruzilhadas da vida. Salve Ariano!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...

Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia, o outro desapareceu...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008


Iluministas decadentes

"A meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. A razão é a fé no que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa de compreensível." (Livro do Desassossego) Diante desse trecho do LD, penso que somos todos iluministas decadentes. Deixamos de crer em Deus, em Deuses, na moral kantiana, deixamos de crer em tudo ancorados na razão. A razão é a nossa deusa maior e caminhando pelos seus labirintos interpretamos sonhos, gestos, palavras, interpretamos a realidade, que por si só nada diz, nada é, e se é algo, esse algo é inapreensível para nós. Se o céu metafísico caiu por terra no século XIX, céu esse que vinha ruindo desde o século anterior, século das luzes, o chão no qual pisamos também está ruindo. E para onde vamos e qual sentido buscaremos? Se por um lado a razão nos ajudar a caminhar nesse nada que é o existir; como uma cobra, a razão morde sua cauda e nos coloca de fente para o espelho. No espelho não há nada além de um belo e profundo abismo.

domingo, 14 de dezembro de 2008


Pantera Negra

Naquele noite Ana demorou para chegar em casa. Encontrou Carlos dormindo. Entrou no quarto e procurou pelo seu rosto inutilmente. Via seu corpo espalhado pela cama, mas no travesseiro havia a face de uma pantera negra. Uma pantera que dormia de forma assustadoramente calma. Ana sentiu calafrios. Imaginou que conhecia Carlos e nunca havia visto aquela pantera. Sentou-se na beira da cama. Pensamentos tortuosos invadiam sua mente. Sentia um cheiro adocicado de perfume no ar, não era dela e jamais poderia ser de Carlos. Quem deitara naquela cama durante toda a tarde que Ana passou no escritório? Imaginou as duas panteras se entrelaçando de uma maneira íntima e cruel. Não podia mais evitar as lágrimas, olhou novamente para a cama e lá estava o estranho animal. Nada mais fazia sentido. Ana viu sua vida de anos ruir. E envolta em devaneios uma frase repetia-se: tomei meu remédio hoje? Não, não tomou. Correu até a bolsa e da maneira mais rápida possível ingeriu o medicamento. Em seguida foi tomar banho. Voltou ao quarto após uma hora. Olhou longamente para a cama, lá estava dormindo Carlos, seu melhor parceiro, seu grande amigo, seu melhor amante. Ana respirou aliviada. Deitou-se feliz e calma ao lado de seu grande amor.

sábado, 13 de dezembro de 2008


DIE ACHTE ELEGIE - OITAVA ELEGIA

Mit allen Augen die Kreatur das Offene.

Com todos os seus olhos a criatura vê o aberto.

Nur unsre Augen sind wie ungekehrt und ganz um sie gestellt als Fallen, rings um ihren freien Ausgang.

Nosso, olhar, porém, foi revertetido e como armadilha se oculta em torno do livre caminho.

Was drauBen ist, wir wissens aus des Tiers Antlitz allein; denn schon das frühe Kind wenden wir um und zwingens, daB es rückwärts Gestaltung sehe, nicht das Offne, das im Tiergesicht so tief ist.

O que está além, pressentimos apenas na expressão do animal; pois desde a infância desviamos o olhar para trás e o espaço livre perdemos, ah, esse espaço profundo que há na face do animal.

Frei von Tod.

Isento de morte.

Ihn sehen wir allein; das freie Tier hat seinen Untergang sets hinter sich und vor sich Gott, und wenn es geht, so gehts in Ewigkeit, so wie die Brunnem gehen.

Nós só vemos morte. O animal espontâneo ultrapassou seu fim: diante de si tem apenas Deus e quando se move é para eternidade, como correm as fontes.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Felicidade vaporosa


"Eu, que fabrico o futuro como uma aranha diligente. E o melhor de mim é quando nada sei e fabrico não sei o quê." E nesse momento a felicidade vaporosa e frágil aparece, quando não sei mais quem eu sou, nem o que eu quero, nem me lembro em qual tempo estou; passado, presente, futuro? Sei apenas que estou diante de um olhar, que não é qualquer um, mas aquele que me deixa sem chão, nem ar. Que me deixa sem identidade, que me desorganiza inteiramente. Esqueço que não sou não inteira, que ele fala japonês ou mandarim? Que ele fala uma língua que eu não entendo, mas que eu sinto minha, me sinto totalmente alfabetizada por esse outro idioma. E nesse sentir, sinto a vida pulsar em meu corpo e sinto estranhamente que ele marca a minha solidão. E que a minha solidão me coloca em comunhão com o mundo, com o universo. E nesse pensar-sentindo, a felicidade vaporosa deixa seu perfume.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Romance

O casamento é de fato o túmulo do amor? A rotina, o excesso, o dia-a-dia levam um bom relacionamento ao abismo? Abismo que nem sempre significa fim por completo, mas fim da intensidade ? O filme Romance trabalha essas questões de uma forma bem interessante. O filme é bom. Mais um ponto para o diretor. Marco Nanini quase mata a platéia de rir. Letícia e Wagner estão ótimos. Apesar de uma certa repetição de falas, o filme vale a pena.
Mas, as questões sobre o amor persistem...O amor mais intenso é aquele que não se realiza? Aquele que fica intocado pelo chão tedioso da convivencia exaustiva? A convivência seria responsável pelo fim do encantamento? Existe amor sem encanto?

"Não mais pensada que a dos mudos brutos
Se fada a humana vida. Quem destina
Mais que os gados nos campos
O fim do seu destino?" (Ricardo Reis)

domingo, 7 de dezembro de 2008


Depressão e imagem do novo mundo

O título deste texto é um ensaio que li ontem da Maria Rita Kehl. Muito bem escrito sobre a depressão nos tempos atuais. De forma simplista, poderia dizer que a psicanalista defende que em todos nós há um fundo depressivo. Ele vem a tona, quando as teias de signifcação para o real se desfazem, mostrando a vida nua, sem sustenção metafísica, sem esperanças ou objetivos. Vale a pena ler o ensaio, está no livro Mutações, organizado pelo Adauto Novaes. Segue abaixo uma pequena amostra:
"Freudianamente falando, a subjetividade é um canteiro de ilusões. Amamos: a vida, os outros, e sobretudo a nós mesmos. Estamos condenados a amar, pois com esta multiplicidade de laços libidianis tecemos uma rede de sentido para a existência." (p.296)