quinta-feira, 17 de dezembro de 2009


"Escrevo esta simplicidade: descasco-te um fruto no joelho.
Humedecem os dedos no interior da devoção.
O amor. Sei-o bem. Aprendi o ofício. Dedico-me a ele na exaltação das imensas noites. Escrevo-o com esta mão lírica que tocou o mundo inteiro, desde a curva do teu ombro às mandíbulas do esquecimento. Ah...o amor, essa máquina afectuosa a escavar por mim adentro...cabeça, pés, o peito todo. A comer-me onde sou profundo de ti. A martelar-me a carne bêbada nas altas colinas do contemplamento. Digo-te meu amor e penso esta coisa belíssima: a mão a levar-te o gomo à boca..." ( Ricardo Álvaro in O Espantador)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Anéis mágicos...



Quando eu era pequena, morava no interior, no meu interior e no interior do Brasil. Num fim-de-mundo mágico repleto de sonho e imaginação. Toda quinta eu tinha um compromisso muito sério, ia à manicure com minha mãe. Era um ritual feminino demorado e belo. Entre muitas conversas desnecessárias e o cheiro do esmalte, um som me encantava e me fazia voltar sempre àquele lugar. A mulher que cuidava das mãos da minha amada mãe usava anéis e antes de passar o esmalte nas unhas da minha mãe ela fechava as duas mãos com o esmalte no meio e o fazia rolar entre um sentido e outro. Neste momento absolutamente e absurdamente mágico, eu fechava os meus olhos e escutava com todo o meu louvor aquele mantra. Os anéis tocando no esmalte que iria tornar minha mãe mais bela...e eu sonhava alto, muito alto, sonhava que um dia, não muito distante, eu teria anéis e poderia ser dona daquela melodia, aquela capaz de anunciar o cuidar de um feminino mais do que misterioso e especial...

terça-feira, 24 de novembro de 2009


"Mas e se fosse mesmo assim? Sem começo ou fim. Sem datas, sem manuais de instrução...sem saber se amanhecerá ou se a lua aparecerá? E se fosse feito assim sem preocupação, sem moldes, sem planos? E se fosse assim com amor e sem hora? Ou o contrário! E sem preparações, sem preocupações e simplesmente acontecesse...e se fosse fácil e sabido, como atravessar um rua...Ou ligar um carro? E o silêncio então, nunca mais existiria. E a cabeça nunca mais deixaria esse pensamento de fugir. E se a profundidade fosse pouca? E nada nos afogaria. Ou se o pássaro viesse de um vôo calmo e desse um mergulho bem do nosso lado e o peixe no bico garantisse toda a eternidade dos próximos dois minutos? E se fosse assim, como eu seria?" Duda Cambraia.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um certo céu solitário

Com um lindíssimo vestido branco, Sônia sentia que aquele era um dos momentos mais decisivos da sua vida. Quando ele, ao lado da mãe e com um largo sorriso no rosto, apareceu na porta do santuário, Sônia não pôde acreditar. Havia passado toda a noite anterior com ele e no seu íntimo guardava esperanças genuínas de que ele simplesmente não aparecesse.
Tudo girou à sua volta e ela desmaiada caiu no chão. Foi vítima de um forte ataque de coração. E esse ataque fazia todo sentido ao contrário de todo acaso que muitas vezes nos cerca. Como uma conversa pede, muitas vezes, um beijo ou um murro, aquele instante pedia um ataque do coração. Sônia era extremamente católica e sempre rogava aos santos que a tirassem a vida através do coração.
De olhos abertos enxergou o famoso túnel e a famosa luz no fim do túnel. Sônia era alegria em estado bruto. Estava certa de que adiante havia o Paraíso com São Pedro à sua espera. Sim, seu maior desconforto estava resolvido. A solidão ácida que a ameaçava teria um fim. Encontraria muitas pessoas boas no Paraíso. Estaria sempre rodeada de gente. E foi caminhando leve e serena... A porta estava aberta, mas não havia ninguém. Ninguém na porta, ninguém dentro do Paraíso, ninguém ao redor do Paraíso. Sônia chorou como uma criança, chorou tanto que adormeceu numa relva vermelha. Quando acordou ficou observando aquele céu de um azul exuberante, aquele silêncio maravilhoso. Começou a perceber que o Paraíso era a solidão. E deixou que o silêncio permeasse todo o seu ser e se apaixonou pela ausência de todos. Sentia-se feliz e completa, sentia-se livre. Livre das amarras da civilização, livre da palavra falada, livre, livre, livre.
Virou lentamente a cabeça para o lado e avistou um vulto. Uma imagem que trazia muitas lembranças e o inferno dos sons. Aquele sorriso tão conhecido acompanhado de palavras...Soltou um grito de horror, outro ataque do coração, desta vez, fatal.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

"Para criar, destruí-me; tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente." (Soares)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Viagem a Darjeeling


Num sábado pela manhã quatro conhecidos se encontram na estação de trem para viajar.O dia era uma promessa, muito sol e muita animação...Horas e mais horas dentro do trem...trem de histórias, histórias de vida e estórias de boticários e ursos no Alasca. Última estação: desceram todos e pegaram outro comboio. O clima ainda era de muita animação. E, afinal quem eram esses conhecidos? Eram todos amigos do saber e pertenciam a nacionalidades diferentes. A viagem era um desafio. Se viajar por individualidades diferentes sinaliza sempre uma grande dificuldade, imagine viajar não só por individualidades diferentes, mas individualidades imersas em culturas diferentes. Chegaram numa pequena cidade, muito bonitinha, muito interessante, muito repleta de graça e sabor. Depois de horas de viagem pararam para comer, todos nervosos, o instinto de sobrevivência gritando. Comeram, beberam, foram para um hotel muito simpático e em seguida a um passeio bem agradável. Um bom jantar regado ao maravilhoso vinho português amenizava todas as diferenças, não eram mais conhecidos, mas grandes amigos, companheiros de uma viagem universal, o passeio pelo planeta. O clima seco pairou pelo ar no segundo dia, se o primeiro foi o dia das afinidades, o segundo foi o dia das diferenças. O cansaço oriundo da vontade de falar esperanto acentuou a impaciência bem comum aos seres humanos. A saudade de uma cidade que não era de ninguém foi se fazendo presente. E, no terceiro dia, todos de volta ao trem e muitas horas de viagem...muitas histórias novamente, não mais de ursos no Alasca, mas de vida, de experiências, de amizade. Ficou a certeza de que falamos todos a mesma língua e de que somos muito menos singulares do que imaginamos, falamos esperanto e não sabemos!!!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

"O poeta superior diz o que efectivamente sente. O poeta médio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que julga que deve sentir.
Nada disso tem a ver com a sinceridade. Em primeiro lugar, ninguém sabe o que verdadeiramente sente; é possível sentirmos alívio com a morte de alguém querido, e julgar que estamos sentindo pena, porque é isso que se deve sentir nessas ocasiões." (Campos)

terça-feira, 15 de setembro de 2009

"Ortografia também é gente."
(Soares)

sábado, 15 de agosto de 2009

Amor e budismo

Demorou quase três anos para ter intimidade sentimental com seu namorado. Tinha medo dele, precisava temê-lo. Mas, o ponto central do problema era outro: tinha medo do amor. Sabia que o amor era um peso, um fardo, um sentimento colado ao ego. Belo era sentir amor pela humanidade, belo e leve. Agora amar verdadeiramente uma pessoa, para ela, tratava-se de uma questão de egoísmo. Amar é querer constamente o outro, e mais do que isso é querer que esse outro não sofra. Por amor a ele, ou por amor a nós mesmos. Kant não havia amado ninguém, ela estava certa disso. Não existe amor desinteressado, a não ser que seja um amor coletivo e não um amor individual. O fato era que o amava intensamente. E isso a deixava muito triste e desesperançosa em relação ao futuro. O certo é cada um se amar e pronto, assim ela afirmava em sua mente. Mas, o que pode a razão diante do sentimento vulcânico chamado amor? Nada. Pensava que a solução para aquele problema era aderir ao budismo, não só de uma forma religiosa, ou filosófica, mas também corporal. Pensava seriamente em ir para uma sociedade alternativa budista. Depois de passar dias ao lado dele, acordou arrumou sua bagagem e seguiu rumo à comunidade budista. Trabalhava durante o dia e fazia muitas orações durante a noite. E antes de dormir lavava o rosto e sempre enxergava a imagem dele, tão nítida, tão forte, que não conseguia impedir que as lágrimas caíssem. O amor não permitiu que se transformasse numa budista convicta.

domingo, 9 de agosto de 2009

      POEMA EM LINHA RETA

    Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
    Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

    E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
    Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
    Indesculpavelmente sujo,
    Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
    Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
    Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
    Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
    Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
    Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
    Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
    Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
    Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
    Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
    Para fora da possibilidade do soco;
    Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
    Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

    Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
    Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
    Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

    Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
    Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
    Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
    Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
    Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
    Ó príncipes, meus irmãos,

    Arre, estou farto de semideuses!
    Onde é que há gente no mundo?

    Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

    Poderão as mulheres não os terem amado,
    Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
    E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
    Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
    Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
    Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

    Álvaro de Campos

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Pobre Schiller

Domingo fui ao teatro assistir a peça Maria Stuart do Schiller. Ao saber que iram utilizar a tradução do Bandeira fiquei muito animada. Mais de três horas sentada diante de uma peça horrível. Coitado do Schiller...um texto lindo tão mal falado...O diretor apostou num cenário bem despojado, tudo bem simples. Ver uma rainha de calças foi algo me chocou. Porque me chocou? Um texto de 1800 ou tem que ser adaptado aos dias atuais ou se não for modificado a platéia tem que ser convidada a entrar neste outro tempo. Como fazer isso? Só através da palavra eu acredito que seja impossível, tem que haver uma atmosfera, o cenário no caso. As duas rainhas representaram pessimamente seus papéis. Uma gritou tanto que teve uma crise de tosse diante da platéia. A outra exagerou tanto na representação que caricaturou a personagem. Enfim, foi um final de domingo muito cansativo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Alma geográfica

Para Fabrício

Naquele almoço eu já sabia antecipadamente da vitória. Ainda que eu não soubesse adivinharia ao olhar aquela face luminosa e aliviada. Ele estava se preparando há um ano...se preparando para ocupar um lugar que era seu. Como a vida é repleta de curvas, ele teve que suar um pouco para sentar no seu lugar de direito. Robson era um pessoa muito interessante. Tinha a geografia estampada em seu rosto. Sua conversa sempre era permeada por cheiros, pessoas, lugares exóticos. Tinha uma alma delicadamente trágica. A paixão era sempre seu porto seguro. Sempre absurdamente e absolutamente apaixonado. E na maioria das vezes por pessoas muito diferentes das que circulam em nossas pacatas vidas. Pessoas oriundas de lugares não conhecidos. Isso fazia parte de Robson, essas pessoas, esses grandes amores, retratavam a sua psique. Uma psique complexa e muito original. Seus pensamentos e sentimentos circulavam por lugares inéditos, surpreendentes. Ouvir suas histórias representava uma festa para a imaginação.

sábado, 1 de agosto de 2009

"... os bichos me fantasticam. Eles são o tempo que não se conta. Pareço ter certo horror daquela criatura viva que não é humana e que tem meus próprios instintos embora livres e indomáveis. Às vezes eletrizo-me ao ver bicho. Estou agora ouvindo o grito ancestral dentro de mim: parece que não sei quem é mais a criatura, se eu ou o bicho." Clarice Lispector

quarta-feira, 29 de julho de 2009

O som da neve...


Deitado na neve escutava a voz suave de Eddie Vedder. Não sabia se seu encanto pela música passava pela biografia do cantor. Ele havia se casado pela primeira vez em Roma, cidade que Tom amava. Mas, não era só isso...as músicas de Eddie tinham um tom específico, um tom de busca, de uma busca leve e complexa. Tom se identificava com isso. Havia deixado seus pais, sua família, seus amigos num lugar distante. Há muito tempo estava em outro lugar e ao mesmo tempo em vários lugares. Buscava, buscava, de forma leve e também ardente a liberdade. A liberdade da busca, Tom era apaixonado pela possibilidade de buscar...novos amigos, novos lugares, tudo novo, sempre novo. Sempre disposto a ajudar quem cruzasse seu caminho. Naquele momento estava adorando estar deitado na neve, sentido em todo o seu ser aquele som que o fazia comungar com o infinitamente impossível.
"Tudo que eu não invento é falso"

(Manuel de Barros)

domingo, 26 de julho de 2009

Invasão!


Com a cara afundada na roupa que havia usado há tão pouco tempo sentia aquele estranho perfume...um perfume selvagem que a remetia para aqueles olhos...olhos pequenos, escuros, perigosos, agressivos, naturalmente ameaçadores...sentiu tanto medo ao olhar para eles, um medo estranho, um medo de ser totalmente invadida por esse outro. Aquele cheiro a levava por esses lugares em sua psique, um cheiro que não era dele, nem dela, mas de algo que havia acontecido, algo que fugiu de toda e qualquer regra, de qualquer previsão banal. Viajava suavemente por uma outra realidade, menos dura, menos enfadonha, menos real...sentia ainda um gosto de vida, um gosto de alegria, de saudade...saudade do que vinha pela frente, como poderia ser? Simplesmente assim...afastou a roupa de sua face, pensou que gostaria de se transformar no protagonista do filme "Na natureza selvagem", levar na mochila somente o extremamente necessário...levaria aquele cheiro, aquele gosto, aquele olhar, não na mochila, mas na palma de sua mão...

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Adoro essa mulher!!!


"Ouse, ouse... ouse tudo! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda ... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!" - Lou Salomé

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Chuva


Ela acordou com gosto de chuva na boca...levantou, escovou os dentes e continuava chovendo. Lá fora um sol ameaçador brilhava no céu...Mas, a chuva não parava. Trocou de roupa, penteou aquela longa cabeleira negra e muito incomodada continuava a ouvir trovoadas. Abriu a porta, que ventania. Entrou no elevador. O vizinho, de camiseta branca, comentava como era bom ter um dia de verão. Não tinha forças para responder, apenas balançou a cabeça e moveu suavemente os lábios. Pensava como seria bom se aquela chuva lavasse todo seu corpo por dentro.
Encontrou Antônio. As gotas de chuva invadiram o céu do seu olhar. Ele não entendia, se esforçava em vão. Deixou a cafeteria para trás e seguiu em frente. Finalmente a chuva caiu...que alivio...sentia a água entrando por todos os poros e mergulhada num oceano de gotas esqueceu que existia.

sexta-feira, 10 de julho de 2009


Essa cidade é um espetáculo!!!

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A cadeira dourada


Sentada no alto de uma cadeira dourada mergulhada no nada ela pensava...Pensava na cadeira dourada e no passarinho que via bem distante...pensava no chão que faltava e no amor que sentia.
Seria mesmo amor? Por ela, pelo outro ou pela cadeira dourada? Só sabia amar sentada, naquela cadeira específica. O amor era antes de tudo um lugar e não um sentimento de alteridade. Ela se envergonhava do amor que sentia, sabia que era por ela mesma, não pelo outro. Olhava tristemente a foto do casal, aquele casal não faria o menor sentido longe daquela cadeira. E ela queria levantar, sentar por um instante na cadeira ao lado, ou proseguir andando... Deixou então o conforto do lugar naquela cadeira dourada e deslocou todo seu amor para o caminho repleto de curvas e de surpresas.
DA MINHA ALDEIA vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.

Alberto Caeiro, em "O Guardador
de Rebanhos"
.

domingo, 17 de maio de 2009

O lugar era lindo. Ela resolveu deitar embaixo de uma árvore de folhas vinho. A grama estava repleta de flores, margaridas pequeninas. No céu algumas nuvens e na cabeça uma liberdade total. Deixou para trás tudo que era conhecido e num mundo belamente estranho caminhava protegida. Não dominar nada, não saber seguramente de nada, eis a verdadeira liberdade. O que era certo ou errado naquela lugar? Sem paradigmas, protegida pelo caminhar do estrangeiro, daquele que estranha de maneira suave e doce o que há pelo caminho. Abriu seu livro e sem ler nenhuma palavra sentia na pele a leveza da vida. Sem sonhos...apenas com sono, acabou adormecendo por um longo tempo naquele lugar mágico.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Der Panther

Im Jardin des Plantes, Paris

Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe
so müd geworden, dass er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein großer Wille steht.

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hinein,
geht durch der Glieder angespannte Stille -
und hört im Herzen auf zu sein.


Rainer Maria Rilke

sexta-feira, 8 de maio de 2009

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A Língua Desconhecida

Para R. de Oliveira

"O sonho:conhecer uma língua estrangeira (estranha) e, contudo, não compreender: perceber nela a diferenca, sem que essa diferenca, seja jamais recuperada pela sociabilidade superficial da linguagem, comunicacão ou vulgaridade; conhecer, refratadas positivamente numa nova língua, as impossibilidades da nossa; aprender a sistemática do inconcebíbel; desfazer nosso real sob o efeito de outros recortes, de outras sintaxes; descobrir posicões inéditas do sujeito da enuciacão..."

(R. Barthes)

sábado, 25 de abril de 2009

"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo. " (Clarice!)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Spinoza, Derrida e a academia




Sempre imaginei que a academia fosse uma deliciosa torre de babel. Imaginei que as diversas línguas lá faladas possibilitassem um enriquecimento sem igual ao nosso olhar. Imaginem: ouvir uma língua desconhecida, falada por alguém que ama o saber, isso na minha ingênua visão só poderia enriquecer e multiplicar as nossas perspectivas sobre o processo de conhecimento, sobre pensadores entre outras coisas. As experiências me revelaram a face da babel confusa e frágil.

Acordei ontem pensando nessas questões e em Spinoza. Não pensava na face genial do filósofo mais na face mais próxima de todos nós que gostamos de conhecer. Spinoza passou a vida polindo lentes, não deu aulas em nenhuma academia, dedicava-se a sua paixão pelo conhecimento de forma relativamente solitária. Eu estava levando em consideração a possibilidade de aprender um novo ofício, polir lentes. Fui para a faculdade nesse clima de futura polidora de lentes. Mas, tive uma grata surpresa...asssisti uma aula sobre Derrida ministrada por Nabil Araújo. Um acadêmico sério, inteligentíssimo e muito hábil. Imaginem o que é tornar Derrida didático? Tarefa para um Titã. Derrida que tem um pesamento escorregadio, muitas vezes difícil. Pois Nabil ensinou muito sobre Derrida sem reduzir o pensamento dele. Mostrando total clareza sobre o que falava, Nabil não tentava arrebatar o ouvintes (de forma egóica como costumam ser alguns palestrantes) e nem arrebanhar discípulos. Voltei para casa pensando que talvez aprender polir lentes não fosse mais necessário.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Entre os muros da escola

Um bom filme, apesar de ser um pouco lento para meu gosto. O ator principal atua de uma maneira perfeita. Ele é um professor que dá aulas para meninos que moram na periferia de Paris. Pessoas que não participam do glamour da bela cidade. Questões como: para que serve a escola? e, como ser um bom professor? permeiam a narrativa. Acho que o ponto mais interessante do filme é: qual é o papel dos marginalizados numa sociedade que aparentemente funciona bem? E mais: sendo o professor supostamente um homossexual, ele também estaria no mesmo patamar dos alunos?

sábado, 18 de abril de 2009

Seja mulher



Para meu amigo Fábio F.

Há muito tempo queria se livrar daquele cristianismo decandente que habitava um remoto espaço da sua psíque. A hora era aquela, tinha que ser mulher para isso. Lá estava ela reunida com um grupo de conhecidos embriagados e na sua frente uma grande prova. Estava na África bem longe de casa e olhava com suor e tremor para um fragmento do seu objetivo. Pensava e pensava e permanecia imóvel. Era deleuziana ao extremo e do pior tipo. Acreditava estar conectada com tudo, aliás achava que ela era tudo e que tudo era ela. Reduzia o universo à sua minúscula lente reflexiva. O que mais a incomodava era o modo como via os animais. Quando adolescente não pensava neles, logo que entrou na idade adulta passou a ter um carinho extremado por eles, e em seguida passou a humanizá-los. Chorou muito quando assitiu ao Homem urso, chorou por pena de si, aprovava todos os passos do protagonista do documentário. Chegou a esse triste ponto: não via animais, via ela própria projetada neles. Por isso aquele momento, naquela noite, naquele continente era tão importante na sua história: era o momento de ser mulher, de ser mulher como um todo, de resgatar seu lado animal. Bastava um gesto simples, muito simples. De uma simplicidade aterrorizante. Alguns a sua volta riam, outros dançavam, outros conversavam, ninguém percebia a seriedade daquele instante. Ela começou chorar, de uma forma muito discreta, não podia seguir adiante, não conseguia resgatar seu lado primitivo, animalesco. Não conseguia colocar em sua boca aquele petisco deliciosamente preparado: formigas pote-de-mel. Imaginava toda a trejetória daquelas formiguinhas, pobres coitadas diante de bárbaros falantes. O que fazer? Percebeu o pior: naquele exato instante não era mais deleuziana, estava apartada dos demais. E num golpe único tomou todo o copo da bebida destilada à sua frente e comeu todas as poucas e caras formigas que estavam na mesa. Soltou um uivo e pôs-se a dançar.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Belo Belo

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Tenho o fogo das constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo-que foi? passou! - de tantas estrelas cadentes.
A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.
O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.
Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.
As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.
Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.
- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples..

Manuel Bandeira

sábado, 11 de abril de 2009

Tempestade


Abriu os olhos com muito vagar e de forma confusa e nublada tentava organizar sua percepção visual. Muitas pessoas estavam a sua volta, vozes, sussurros, diferentes cheiros, havia alguém fumando. Clara suspirou, queria silêncio, queria que o mundo parasse por apenas um minuto. Logo aproximou-se um homem de meia-idade de roupa branca e cabelos alaranjados. Pediu que todos se afastassem, Clara pressentiu: era um anjo. Somente um anjo poderia ler seus pensamentos e afastar toda aquela confusão... O anjo tocou suavemente a sua face e em seu olhar percebia-se um misto de ternura e preocupação. Clara procurava pela tal luz no túnel e nada, a única luz estava acesa bem acima de sua cabeça. O anjo balançou a cabeça e desligou dois aparelhos bem próximos. Tudo ficava mais nítido. Estava em um quarto, que foi pintado num tom de verde bem clarinho, um quarto amplo e um pouco escuro. Lembrou-se que havia morrido. Seria isso a vida após a morte? Sim, seria. E Clara sorriu. Geraldo sentou-se bem próximo e fez algumas perguntas. Ela só respondeu a primeira: seu nome. Que felicidade, não se recordava mais de nada, apenas do seu nome, algo tão insignificante e arbitrário. Finalmente havia deixado para trás todo o resto. E o melhor: tinha plena consciência disso. Sentia-se bem, estranhamente e absurdamente feliz. Pediu um espelho e viu sua face, ficou satisfeita, ainda havia um longo caminho que possivelmente seria percorrido. De outra forma, ou da mesma, que ainda sim seria outra, pela ausência da memória. As pessoas voltaram ao quarto, uma a uma, e Clara não se recordava de ninguém. Como era doce a ausência de rótulos imaginativos. Podia amar cada criatura daquela, sem saber seu nome, personalidade, aliás, queria saber apenas os nomes. Achava engraçado a relação daquelas pessoas com os nomes. Falavam vagarosamente, acreditando absolutamente que o nome tornava aquele ser único, separado do resto dos outros. Clara pensava como seria bom se todos percebessem o quão interessante é partilhar da humanidade como um todo, mas do que isso, da natureza. Não nomear nada, nem ninguém, poder ser chamdo de estrela, de mar, de céu, de Clara, de Pedro, de corpo, de alma. Como nos tornamos amáveis na medida em que dissolvemos nosso nome e nossa pseudo-identidade no todo. E Clara ria, de forma gostosa e suave a cada novo nome pronunciado. E eles também riam partilhando todos, naquele quarto verde clarinho, do grande segredo não nomeado.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O casamento de Rachel



Se alguém deseja assistir a um filme monótono, mal dirigido e extremamente chato é só optar pelo Casamento de Rachel. Repleto de cenas desnecessárias, uma música enfadonha, com quase todas as cenas filmadas no esquema de documetário da vida privada, um pesadelo. Nem a estória é interessante, nem a paisagem é bonita, nem os personagens atuam de maneira minimamente satisfatória. Em alguns momentos percebe-se o esforço da protagonista em tornar o filme palatável, esforço que não leva a lugar nenhum além da enorme frustração do público em perder seu tempo com um filme de pouquíssima qualidade.


"Oh, minha'alma, não aspira à vida imortal,

mas esgota o campo do possível."


Píndaro, 3 Pítico

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Pássaro

E ele veio de novo, acomodou-se em sua janela e ficou olhando para ela atentamente. Colorido, exótico e com sua estrela na boca, aparecia todos os dias quase sempre no mesmo horário e ficava por ali alguns minutos a observando. Ela sempre imersa nos afezeres do universo feminino, se assustava com aquela presença convidativa. Seu mundo era preto e branco, seguia rigidamente uma rotina. Ao lado da sua cama deixava pronta e limpa antes de dormir a sua doce máscara. Uma máscara bem desenhada que cabia de forma quase perfeita em seu rosto triangular. Uma máscara de boa moça, muito bem educada, boa mãe, ótima companhia. O pássaro oferecia outras possibilidades, oferecia uma vida diferente, na estrela que trazia no bico havia o desenho de uma outra máscara. Uma máscara que repleta de pulsão de morte mesclada com o princípio do prazer. Muitas noites aquele pássaro era companheiro de sua insônia. Poderia ela largar tudo? Poderia ela viver sem aquela máscara que usava confortavelmente todos os dias? Poderia ela se arriscar a ver o vazio da vida e do ser ao trocar de máscara? Temia que o pássaro não mais a vistasse, temia sua ausência, temia e desejava. E assim foi vivendo, anos e anos, temendo e desejando...

sábado, 4 de abril de 2009


Habermas e Nietzsche

O Discurso Filosófico da Modernidade de Habermas é um livro relativamente chato. Isso porque Habermas é pouco cuidadoso com o leitor, escreve para si e não para o outro. No capítulo que ele trata do pensamento de Nietzsche há uma série de equívocos. O primeiro deles: Habermas não reconhece a multiplicidade da filosofia nietzschiana. Ele estaciona no primeiro Nietzsche, no livro O nascimento da tragédia. Isso é problemático porque:1) sabemos que os escritos não publicados desta época (do NT) muitas vezes contradizem o filosofia/trágica/metafísica lá exposta por Nietzsche, que queria muito publicar o livro e precisava do aval de Wagner, grande influência na época; 2) seis anos mais tarde Nietzsche publica Humano demasiado humano, um livro positivista, onde Nietzsche vai romper com a concepção de arte exposta anteriormente e dar as mãos para a ciência, mostrando uma ruptura com o pensamento de Schopenhauer e com a arte wagneriana.
Habermas também mostra pouco conhecimento em relação à Dionísio na obra de Nietzsche. Dionísio não pode, ao meu ver, ser trabalhdo isoladamente. No NT há uma correspondência entre o pensamento de Schopenhauer - vontade-idéia-representação- e o pensamento de Nietzsche - uno-primordial-dionísio-apolo. Apolo e Dionisio saõ duas pulsões artísticas complementares. Dionísio só torna-se acessível pela máscara de apolo.
Poderia citar mais alguns equívocos, mas sabendo que no Discurso Filosófico da Modernidade o que está em jogo não é de fato a filosofia nietzschiana, mas como essa pode servir para Habermas chegar onde ele quer, ou seja, mostrar os pontos da sua própria filosofia que de alguma forma se relaciona com o iluminismo, não tem problema ter tanta coisa fora do lugar.

quarta-feira, 1 de abril de 2009



Que hei de fazer se de repente a manhã voltar?

Que hei de fazer?
— Dormir, talvez chorar”.

(Manuel de Barros)

domingo, 29 de março de 2009


Liberdade

Deitada na grama e coberta por ela, observava o céu. Na terra duas coisas a fascinavam absurdamente: o céu e os olhos. Do céu amava a imensidão, o não mensurável, o azul, as nuvens, as posibilidades que ali se anuciavam. Os olhos representavam a mesma coisa, não importava o formato deles, importava a imensidão, a vida, a luz, mais do que a vida, a vivacidade pulsante.
E ela pensava na vida, a vida vazia e oca que não foi feita para pensar. Ela pensava justamente isso: "pensar é estar doente dos olhos." Queria ser como uma nuvem e ir de acordo com o vento, uma nuvem sem ego, uma nuvem liberta e cósmica, uma nuvem leve e viva.

terça-feira, 17 de março de 2009

Foi apenas um sonho

Um filme muito bom. Gostei de como o feminino foi trabalhado. Feminino como desejo, como busca, como desilusão. Quando a protagonista olha a foto do marido em Paris e se lembra de que ele sonhou um dia em voltar para lá, inicia sua busca de realização. Realização de quê? A princípio do desejo do outro e não do desejo dela. Mas, de repente ambos os desejos se encontram, o desejo de desejar o que o outro deseja e o desejo próprio, desta mulher que quer romper com a monotonia de sua vida. Uma mulher reprimida, não realizada. Não consegue ser a atriz que desejava, não consegue ser feliz em seu casamento. Paris representa uma retomada de velhos sonhos, uma vida nova repleta de surpresas. O único personagem que conseguem perceber a representação simbólica de Paris é um louco, um marginalizado, tão marginalizado quanto esse feminino. A margem da vida, da ação, e ao mesmo tempo no centro do poder, poder do outro sobre ela.
Outro aspecto interessante do filme: como se inicia uma relação que pode durar anos. Num encontro banal, trocando palavras e sorrisos, as coisas vão acontecendo e as pessoas vão entrando em papéis culturais. Namorados, maridos, esposas, amantes. Fiquei pensando num relacionamento que se iniciasse de forma diferente. No primeiro encontro apenas o desejo, o olhar. Depois as palavras, a descoberta de infinitas afinidades. Depois a lembrança da diferença: o outro é sempre outro e por causa disso não posso depositar nele todos os meus sonhos e esperanças. O sonho não pode ser o outro, o sonho deve ser driblar a morte na companhia desse outro. Parece que a noção de alteridade vai se perdendo ao longo das tradicionais relações amorosas.
Outra coisa que me chamou a atenção; é um filme que vai contra uma idéia de Freud. A gravidez para o pensador austríaco é a fase na qual a mulher se sente mais fálica, mas plena. Provavelmente essa afirmação de Freud foi feita por que ele não ficou grávido. Como mostra muito bem o filme na gravidez é que o vazio da vida se torna mais ácido e corrosivo. A mulher torna-se fálica quando o filho está fora da sua barriga, aí sim, há um relâmpago de completude quase absoluta.

segunda-feira, 16 de março de 2009

domingo, 15 de março de 2009

Lua

Completamente nua olhava a lua pela janela. Estava no sétimo andar do prédio. Luzes apagadas. Um vento suave enconstava em seu rosto. Estava feliz. Tinha uma intimidade estranha com a lua, como a maioria das mulheres. A lua que mudava as marés e o humor feminino. A lua que era homenageada durante os períodos de romance e esquecida na rotina pesada do dia-a-dia. Lembrava-se da última viagem para Grécia, do passeio de navio, da visita à Atenas, das muitas noites agradáveis. Ouviu um barulho bem próximo: era Kant, seu cãozinho de estimação que se aproximava. Kant não conhecia nenhum imperativo categórico, apenas os hipotéticos e desses, os problemáticos. Moravam no apartamento somente os dois: ela e Kant. Mergulhada em pensamentos leves e complexos assistiu ao inusitado. Seu quarto foi inundado por inúmeros papéis. De onde vinham? Pegou alguns: poesia...pura poesia. Rilke, Nietzsche, Cecília, Drumond, Cabral, Bandeira...Todos estavam lá, ao lado dela e de Kant. Melissa sorria docemente. Sabia que era um recado, mas não queria responder. Não queria dizer nada, queria apenas continuar sentindo a plenitude...amparada pela lua, acompanhada por seu cãozinho hipotético e pelos seus grande amigos...

domingo, 8 de março de 2009

Sobre o amor - Rilke - 1904

"Amar também é bom: porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas preparação. Por isso as pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo, não sabem amar: tem que aprendê-lo.Com todo o seu ser, com todas as suas forças concentradas em seu coração solitáro, medroso e palpitante, devem aprender a amar. Mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura. Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente? O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, por causa de um outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe. Do amor que lhes é dado, os jovens deveriam servir-se unicamente como um convite para trabalhar em si mesmo ("escutar e martelar dia e noite"). A fusão com outro, a entrega de si, toda espécie de comunhão não são para eles (que deverão durante muito tempo juntar muito, entesourar); são algo de inacabado para o qual, talvez, mal chegue atualmente a vida humana."

sexta-feira, 6 de março de 2009


Um novo dia...

No final do dia ela estava exausta. Mais de dez pacientes haviam deitado no divã naquela quinta. E a noite não poderia deixar de comparecer à exposição de sua grande amiga. Trancou a porta do consultório, deitou-se no divã e olhando para o teto deixou sua mente navegar sem destino certo. Pensou nas leituras que ainda queria fazer naquele dia, nos afazeres do dia seguinte, no cansaço que estava sentindo e nas amizades que fez ao longo da vida. Lembrou da protagonista do Leitor, filme assitido ainda naquela semana. Uma figura chapada e fria, sem profundidade, nem complexidade. Ela não conseguia achar pontos de contato com aquele tipo de personalidade. Era como seu país, tropical, permeado pela umidade, pelo exagero do céu extremamente azul e do dia absolutamente quente. Sabia dos seus muitos defeitos, mas entre eles não estava a frieza excessiva. Emocionada se recordou de uma grande amiga, que a vida, ou melhor, a morte encarregou-se de levar. Pensava em quão difícil era perder as pessoas. Se relação com outro não fosse um problema constante no existir, seu consultório estaria vazio.
Os quadros expostos eram de uma beleza cujas palavras não alcançam. Sua amiga estava plenamente feliz. Muitos convidados admiravam as obras. De repente, foi tocada no ombro por Joana. Um frio percorreu sua espinha. Nunca foi boa em disfarces e por mais que quisesse não podia sorrir para aquela criatura. No passado foram grandes amigas. Mas, pouco depois de superar a traição do marido, Joana seguiu o mesmo percurso, e Sofia que ainda se livrava do gosto amargo da traição sentiu seu gosto ainda mais intenso. Foi um período difícil, já superado, jamais esquecido. Joana nunca entedeu o fim da amizade. Não podia. Em sua cabeça e em seu coração não havia espaço para inclusão. Amizade, para Joana significava apenas compartilhar boas risadas e algumas lágrimas, nada além disso. Joana carregava o peso da solidão, não conseguia fazer laços afetivos, tinha uma patologia: abandonar as pessoas e fazia isso da maneira mais egoísta possível. Era incapaz de dividir algo, de compartilhar. Sua marca, sua tatuagem estampada no corpo era a solidão. E ela achava isso muito bonito. Ser só, ser independente, ser demais, não precisar de ninguém. Sofia não podia suportar aquele temperamento fálico por muito tempo, e a amizade durou pouco. Sofia chorou, expôs sua perda no divã, mas seguiu adiante. E depois de anos lá estava aquele fálica mulher. Sorrindo, como se nenhum episódio ácido houvesse se passado entre elas. Sofia pegou sua bolsa e sem dizer nenhuma palavra foi embora. O cansaço impediu que qualquer pensamento amargo invadisse suas muitas reflexões e o mais importante: nenhuma gota daquela decepção tão antiga foi capaz de inundar seu coração.

quarta-feira, 4 de março de 2009


Descoberta

Naquele dia ela descobriu que o amor situava-se entre a vaidade e a indiferença. Roberto ficou por apenas dez minutos em sua casa, tempo suficiente para pegar umas coisas e dizer um olá. Ela olhou atentamente aquele companheiro de mais de vinte anos. Percebeu como ele havia envelhecido e ela também, mas algo no olhar conservava um amor juvenil. Mas, juvenil mesmo eram as muitas paixóes que ela sempre carregou. Era uma alma que muito se apaixonava. Podia ser por um dia ou três anos, pode ia ser por um livro, por um pensador ou por alguém. Ela sabia que precisa das muitas paixões e ele também. As muitas paixões a levavam pelas sendas do mistério e da imaginação. Mas a face do sagrado ela só beijava através do amor que sentia por Roberto. Pensava muito nele, mas sem fantasia, sem mistério, por isso achava que o amor se localizava entre a vaidade e indiferença. E acreditava também que o amor era um vazio concreto que carregava o peso do mundo.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009


das Kino

O cinema realmente tem uma força extraordinária, para mim pelo menos. Um filme suscita tantas questões. Neste fim de semana assisti O Leitor e fiquei pensando em várias coisas. Entre elas: 1) O que nos separa do outro, Deleuze estaria correto, somos todos mais ou menos uma coisa só em movimento? 2) A frieza é sempre um mecanismo de defesa dos sensíveis para que o mundo não os machuque nunca? 3) É possível se entregar sem correr grandes riscos?
Numa relação qual é o papel da individualidade: separar você do outro, ou te ajudar a não estar com esse outro. O que é a individualidade? E qual a importância dela em nossas vidas? Quem tiver respotas, por favor, manifeste-se.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009


Erotismo - Bataille

"Na base, há passagens do contínuo ao descontínuo ou do descontínuo ao contínuo. Somos seres descontínuos, indivíduos que morrem isoladamente em uma aventura ininteligível, mas temos a nostalgia da continuidade perdida. Suportamos mal a situação que nos sujeita à individualidade do acaso, à individualidade perecível que somos. Ao mesmo tempo que temos o desejo angustiado da duração deste perecível, temos a obsessão por uma continuidade primeira, que nos religa geralmente ao ser."

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009


Eu nunca guardei rebanhos

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego

Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos

Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,

Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,

Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.


(Aberto Caeiro)

sábado, 31 de janeiro de 2009



Caos

Ela era extremamente católica. Todos os dias fazia sua oração no início da manhã, acendia a vela para seu santo de devoção, respirava fundo e ia rumo aos seus afazeres. Era uma bela mulher de meia idade e durante todas as tardes ia ao curso de bordado. Num edifíco simples, sentava-se com pessoas também simples e tudo transcorria dentro de uma simplicidade calma e limpa.
Naquela terça-feira andava ela distraida pela rua em direção à sua aula de bordado. Disse olá ao porteiro e entrou no elevador. Pensava no almoço do dia seguinte, na missa que iria mais tarde, enfim seus pensamentos estavam cercados pela sua rotina. A porta do elevador se abriu e ela se deparou com o caos. Saiu do elevador e viu um boi enorme, junto a ele vários carneiros, águias voavam pela sala. Um barulho infernal de chuva atormentava seu olhar. Nas paredes enormes buracos, a cortina amarela apresentava o abismo e ela mal conseguia respirar. Diante de tamanha confusão visual reconheceu suas colegas de bordado, que sorriam de forma suave. Ninguém estava vendo o caos?, pensava ela. Não, ninguém via o que ela estava vendo. Entre vozes, ruídos de portas e o barulho da chuva ela correu para a escada. Desceu rapidamente até a portaria. Parou e fez uma oração. Pediu para Deus ilumininar e organizar o mundo. E no canto da portaria onde estava parada, suada e assustada, rezou com lágrimas nos olhos e o coração em chamas...Olhou para cima e viu o rosto de Deus imerso num furacão colorido, mergulhado numa luz caótica e brilhante. Suas pernas se desorganizaram e ela caiu desmaiada no chão.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009


Morre lentamente

"Morre Lentamente...
Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere o preto ao invés do branco,
Ou branco ao invés do preto
E os pingos nos iis à um redemoinho de emoções
Exatamente a que resgata o brilho nos olhos,
O sorriso nos lábios e coração aos tropeços
Morre lentamente quem não vira a mesa
quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto
para ir atrás de um sonho
Morre lentamente quem não se permite,
Pelo menos uma vez na vida,
Ouvir conselhos sensatos
Morre lentamente quem não viaja,
Não lê, não ouve música,
Quem não encontra graça em si mesmo
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se
Da sua má sorte, ou da chuva incessante
Morre lentamente quem destrói seu amor próprio,
Quem não se deixa ajudar
Morre lentamente quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
Nunca pergunta sobre um assunto que desconhece,
E nem responde quando lhe perguntam sobre algo que sabe
Evitemos a morte em suaves porções,
Recordando sempre que estar vivo exige
Um esforço muito maior que o simples ar que respiramos
Somente com infinita paciência
Conseguiremos a verdadeira felicidade"
Pablo Neruda

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

domingo, 25 de janeiro de 2009

Philia

Eram três camas de bonecas. Três pequeninas camas, num quarto limpo e pequenino, numa casa grande com um jardim enorme. E duas flores adentraram pela casa e subiram as escadas e deitaram cada flor em uma pequenina e aconchegante cama de boneca. E paz ali entrou. Os impasses da vida que eram angustiantes e grandes ficaram menores do que a pequenina cama. E veio o sono, tranquilo, suave, natural. Eram duas flores diferentes, cada uma com seu perfume, com suas cores, com seu tecido. Havia tanto amor entre aquelas duas flores, um amor fraternal, um amor para além de qualquer palavra e de qualquer realidade. Um amor que não era o peso do mundo, mas que aliviava suavemente o peso de existir.

sábado, 24 de janeiro de 2009


Thânatos

Ela sempre buscou a morte, desde muito cedo, desde que sentiu ter dentro de si uma certa individualidade. Individualidade já era morte, pois ser indivíduo é ser só, assim Birna pensava. E só sentia-se bem quando ia ao cinema, lá todos estavam mortos, a luz se apagava junto com todas as individualidades. E assim a vida foi passando e várias mortes se aproximavam, beijando a doce face de Birna. Ela não era triste, os que a conheciam se alegravam com sua presença, era leve, muito leve. Mas a sua leveza era uma simples pintura de sua pele alva. Birna conhecia a profundidade de suas constelações interiores, conhecia seus labirintos e suas muitas imagens estavam sempre passeando por eles. E por isso, a cada dia ela pensava na morte. Pensava que morrer muitas vezes é uma dádiva. Mas, a morte, trapaceira, brincava com Birna, passava por ela, fazia-lhe carícias e ia embora. Não ia para longe, ficava sempre no horizonte do olhar de Birna. E ela que desejou sempre uma morte rápida e prematura, morreu aos noventa e oito anos, de forma lenta e gradual. Antes de cerrar os olhos Birna entendeu que tinha mesmo que percorrer um longo caminho para sentir o beijo mais doce de todos, o beijo da paz absoluta, do esquecimento total, o beijo que dissolveu, finalmente, sua individualidade.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Certezas incertas

Eram ambos engenheiros navais. Se conheceram na empresa, os dois trabalhavam lá. Se encantaram um pelo outro. As conversas eram longas, intensas e profundas, as vezes duravam mais do que cinco horas. Gostavam das mesmas coisas e a comunicação entre eles desde o primeiro encontro era uma certeza. Das muitas afinidades havia uma que chamava a atenção: não gostavam de compromisso, não pensavam em casamento, ou em um namoro normal. Tudo menos a normalidade: era o lema da relação. Ele era mais velho do que ela onze anos e meio e isso era muito significativo. Ele já havia vivido experiências que ela nunca havia imaginado. Não era nada secreto, obscuro, eram experiências daquelas que marcam o rosto da gente, que deixam as fendas interiores mais ásperas. Ela não entendia isso, não podia entender, seu temperamento não era intenso, nem trágico, como o dele. E durante anos o nammuio aconteceu. As vezes se interrompia brevemente. E eles sabiam porque: toda vez que a relação exigia mais compromisso do que diversão, a corda imaginária que existia entre eles se rompia. Estar de fato comprometido era fora de cogitação para ambos. Então, não eram companheiros no sentido largo da palavra, eram amigos, bons amigos, bons amantes, mas não eram companheiros de forma alguma. Mas havia muito amor entre os dois. Eis que um dia o inesperado aconteceu: ele se apaixonou por uma outra mulher. Ela não gostava das mesmas coisas que ele, ela era inclusive mais velha do que ele, e acomunicação entre eles não era uma certeza, não passava de uma simples aposta. Mas, ela era um porto seguro, ela não o deixava nos piores momentos e o mais importante: ela não deixava que ele a deixasse nos piores momentos. E eles foram morar juntos e durante anos tiveram uma relação de confiança, de amor, de cumplicidade e de companheirismo.
Anna continuou no mesmo emprego e embora tivesse sofrido muito com o término da sua relação com Edgar, ela seguiu adiante, ela sabia que não havia problemas, afinal ela tinha onze anos e meio de crédito.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Carpe diem

"Confias no incerto amanhã?
Entregas às sombras do acaso a resposta inadiável?
Aceitas que a diurna inquietação da alma substitua
o riso claro de um corpo que te exige o prazer?
Fogem-te, por entre os dedos, os instantes;
e nos lábios dessa que amaste morre um fim de frase,
deixando a dúvida definitiva. Um nome inútil persegue
a tua memória, para que o roubes ao sono dos sentidos.
Porém, nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio. Então, por que esperas
para sair ao encontro da vida, do sopro quente da primavera,
das margens visíveis do humano? "Não", dizes, "nada me obrigará
à renúncia de mim próprio --- nem esse olhar que me oferece
o leito profundo da sua imagem!" Louco, ignora que o destino,
por vezes, se confunde com a brevidade do verso."
Nuno Judice

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009


Beijo

Foi um encontro de negócios, como tantos outros. Porém a surpresa: ele me beijou. Não foi nem um beijo longo, nem um beijo curto, nem na boca, nem nas folhas, muito menos nas raízes. Foi no tronco, de forma inesperada e leve. E a leveza foi o pior de tudo. Como um humano ousa fazer algo inesperado de forma leve? Não sabem que nós árvores, somos parceiras do sexo feminino, e não admitimos a falta de comando? Dominação, surpresa e leveza é inadimissível para alguém da nossa espécie. Mas, os homens não sabem disso. Não sabem o poder de um simples beijo no tronco. Quantas abstrações em virtude de uma ação desmedida, leve e inofensiva como essa. Quantas interpretações psíquicas e afetivas. E no final, estamos na mesma, paradas, com raízes e nada mudou.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Desassossego de saudade...

"Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angustia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida. Caras que via habitualmente nas minha ruas habituais - se deixo de vê-las entristeço; não me foram nada, a não ser símbolo de toda vida."´(Fernando Pessoa, Livro do Desasossego)

Filosofia condensada numa prosa poética.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Olhos azuis

Aqueles olhos azuis, de uma azul incomum, sempre desconcertaram Marta. Ela que não acreditava nem em Deus, nem no homem, nem em nada que fosse místico, sentia-se ameaçada por aqueles olhos, aquele olhar. Era um olhar que a remetia imediatamente para o idiota, Míchkin, do livro de Dostoiévski. E ela sabia o por quê. Naquele olhar não havia nenhum resquício de maldade, de crueldade, de pervesidade, era o olhar de um homem límpido, bom, como ela um dia imaginou o príncipe Míchkin.
Mensalmente Marta tinha que se colocar na frente dequeles olhos. No dia anterior ao encontro, ela sempre ficava nervosa, tinha dores estomacais, suores noturnos, um mal-estar terrível. Ele era o seu médico há mais de dez anos. Há dez anos a história era a mesma, ela levava os exames no dia quatro de cada mês, falava um pouco sobre sua vida, seu trabalho e ficava mesmo era pensando durante todo o tempo no significado daquele olhar. Saia sempre com muita raiva do consultório. Aquele olhar a deixava tão inquieta que ela precisava buscar um sentido. Ela já havia percebido que se tornara religiosa, acreditava na pureza, na falta de maldade no homem, só por causa daquele "maldito" olhar. Ele a adoecia, ela era racional demais para conceber tais pensamentos.
Eis que um dia Marta foi salva. Tudo aconteceu quando ela entrou numa galeria de arte, (ela fazia isto com certa frequência), dessa vez foi diferente. Olhou diversos quadros e parou diante de um, é impossível descrevê-lo, mas tinha algo de Monet. Era de uma beleza arrebatadora. E Marta percebeu que experimentava os mesmos sentimentos quando encontrava seu médico. Não era misticismo, era a beleza daquele azul naquele rosto tão bem desenhado que a desconcertava. Sim, ela entendeu tudo: se aquela face estivesse exposta na galeria, não seria desconcertante, seria "apenas" de uma beleza inconcebível. E Marta sentiu-se livre de todo e qualquer misticismo, religiosidade, Marta entendeu que a beleza não tem sentido algum, não tem valores morais, tem somente a capacidade de despertar no homem uma afetividade estética.

sábado, 3 de janeiro de 2009


O tempo/ der Zeit

Paulo era um sujeito que gostava de viver. Embora desde muito cedo a vida tenha lhe mostrado seus densos e tenebrosos limites, a vida no auge dos seus quarenta anos ainda o fascinava muito. Ele não gostava muito de bichos, mas era um apaixonado pela pessoas. Toda e qualquer pessoa causava nele uma admiração profunda e quase absoluta. Um dia, Paulo conheceu Mathias que era cinquenta anos mais velho do que ele. Ficou fascinado. As rugas que compunham o rosto de Mathias despertavam um amor imenso em Paulo. Não era um amor erótico, não. Era um amor sublime. Ele olhava para aquelas rugas e imaginava que cada uma delas continha um história, de encontro, de desencontro e sobretudo de superação. E os dois se tornaram grandes amigos em algumas poucas semanas. Tinham uma afinidade de alma. Em pouco tempo surgiu uma bela amizade, os dois quando juntos estapavam confiança mútua, sintonia, cumplicidade. E Paulo conheceu os muitos filhos de Mathias. Era bem interessante. Todos, em um determinado momento, faziam a mesma pergunta: "Há quanto tempo conhece nosso pai?". E Paulo respondia. E em seguida vinha o olhar sempre perplexo, não entendiam como uma amizade que parecia ter anos, tinha na verdade tão poucos dias. E Paulo conheceu os amigos de Mathias e a mesma pergunta se repetia e a mesma perplexidade se seguia a resposta. E Paulo entendia, entendia que na maioria das vezes, o encanto, o respeito e a cumplicidade vem depois de muito tempo de convivência. E lembrava que seus amigos sempre lhe diziam que ele era encantador e que por isso as pessoas gostavam tanto dele em tão pouco tempo. Paulo não sabia disso, sabia com toda profundidade que ele sim, era encantado pelas pessoas, pelas histórias dessas pessoas, pelo caminhar delas pela vida. Sabia também ter herdado do seu tio-avô uma relação diferente com o tempo, ele não se peocupava com a extensão do tempo, mas sim, com a fecundidade e a profundidade de cada momento.

Para o Ano Novo

Ano Novo, vida nova? Pode até ser. Mas, para mim, vale a máxima: Ano Novo, amor antigo renovado! Começar o ano, só se for com ele, meu grande amor...nossa, já passamos por tantas coisas...Nesses 17 anos, já fui absolutamente encantada por ele, já namoramos, noivamos e casamos e todos sabem: casamento não é fácil. Enxergamos bem os defeitos do outro. Já me afastei dele, já chorei com ele e por ele...enfim, hoje temos um relacionamento maduro e eu resignifiquei a nossa história de amor. Então, começo o ano novo com uma das mais belas citações do meu grande amor:


"Para o Ano Novo – Eu ainda vivo, eu ainda penso: ainda tenho de viver, pois eu ainda tenho de pensar. Sun ergo cogito: cogito, ergo sum [Eu sou, portanto penso: eu penso, portanto sou]. Hoje, cada um se permite expressar o seu mais caro desejo e pensamento: também eu, então, quero dizer o que desejo para mim mesmo e que pensamento, este ano me veio primeiro ao coração – que pensamento deverá ser para mim razão, garanti e doçura de toda vida que me resta! Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas – assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas. Amor fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo ausar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!" (NIETZSCHE, Gaia Ciência)