Aqueles olhos azuis, de uma azul incomum, sempre desconcertaram Marta. Ela que não acreditava nem em Deus, nem no homem, nem em nada que fosse místico, sentia-se ameaçada por aqueles olhos, aquele olhar. Era um olhar que a remetia imediatamente para o idiota, Míchkin, do livro de Dostoiévski. E ela sabia o por quê. Naquele olhar não havia nenhum resquício de maldade, de crueldade, de pervesidade, era o olhar de um homem límpido, bom, como ela um dia imaginou o príncipe Míchkin.
Mensalmente Marta tinha que se colocar na frente dequeles olhos. No dia anterior ao encontro, ela sempre ficava nervosa, tinha dores estomacais, suores noturnos, um mal-estar terrível. Ele era o seu médico há mais de dez anos. Há dez anos a história era a mesma, ela levava os exames no dia quatro de cada mês, falava um pouco sobre sua vida, seu trabalho e ficava mesmo era pensando durante todo o tempo no significado daquele olhar. Saia sempre com muita raiva do consultório. Aquele olhar a deixava tão inquieta que ela precisava buscar um sentido. Ela já havia percebido que se tornara religiosa, acreditava na pureza, na falta de maldade no homem, só por causa daquele "maldito" olhar. Ele a adoecia, ela era racional demais para conceber tais pensamentos.
Eis que um dia Marta foi salva. Tudo aconteceu quando ela entrou numa galeria de arte, (ela fazia isto com certa frequência), dessa vez foi diferente. Olhou diversos quadros e parou diante de um, é impossível descrevê-lo, mas tinha algo de Monet. Era de uma beleza arrebatadora. E Marta percebeu que experimentava os mesmos sentimentos quando encontrava seu médico. Não era misticismo, era a beleza daquele azul naquele rosto tão bem desenhado que a desconcertava. Sim, ela entendeu tudo: se aquela face estivesse exposta na galeria, não seria desconcertante, seria "apenas" de uma beleza inconcebível. E Marta sentiu-se livre de todo e qualquer misticismo, religiosidade, Marta entendeu que a beleza não tem sentido algum, não tem valores morais, tem somente a capacidade de despertar no homem uma afetividade estética.